As 366 personalidades que são o auto-retrato de um ilustrador

autoria P3

// data 01/10/2017 - 09:11

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Alex Gozblau anda nestas andanças há já duas décadas e nas molduras do dia-a-dia raramente encontra oportunidade para escapar aos pedidos dos clientes. Por isso, “para limpar a cabeça”, o ilustrador de 46 anos procura volta e meia entregar-se a projectos pessoais onde possa ser exactamente aquilo que é. Foi nesse cenário que, em Abril deste ano, foi resgatar uns retratos que tinha começado a burilar no Verão passado: desenhos de personalidades portugueses e estrangeiras, escritores, políticos, escultores, músicos, cineastas, actores... A ideia do projecto é publicar no Instagram uma ilustração por dia — de Abril a Abril, portanto —, 366 ao todo. “Todas elas pessoas que me dizem, ou disseram, alguma coisa”, explicou ao P3 numa conversa telefónica que o apanhou a debruçar-se exactamente nestes desenhos. “No final gostava de chamar a isto auto-retrato, são personalidades que contam também a minha história.”

 

O critério de selecção é, na verdade, “bastante elástico” — e inclui uma premissa importante: os retratados são aniversariantes naquele dia. Amália Rodrigues a 23 de Julho, Chico Buarque a 19 de Junho, Marilyn Monroe a 1 de Junho, Karl Marx a 5 de Maio. Às vezes, teve de fazer opções difíceis, como a do dia 15 de Julho, em que acabou por optar por Ian Curtis e deixou de lado Walter Benjamin e Iris Murdoch. A técnica utilizada varia: às vezes Alex faz os esboços à mão, fotografa com o telemóvel e trabalha depois digitalmente, outras começa logo a partir do computador. Em algumas imagens incorpora elementos fotográficos.

 

Em Abril, com os 366 retratos feitos, Alex Gozblau quer encontrar um forma de expor este trabalho — “talvez com a ajuda de uma campanha de crowdfunding”. Isto porque a aposta na ilustração em Portugal vive dias difíceis, longe dos interessantes anos 90, das edições muitas vezes desenhadas d' O Independente, do interesse do suplemento Mil Folhas, do PÚBLICO, nessa área. “A aposta é cada vez menor”, lamenta. “Falta mais sensibilidade para a ilustração nos jornais, falta mais educação visual nas escolas”, diagnostica. E deixa um exercício para que percebamos que diz a verdade: “Quando somos crianças recebemos muitos livros ilustrados, a partir de uma certa idade dizem-nos que já só precisamos das letras. Há uma interrupção na nossa educação perante a imagem.”

Eu acho que