Existe um local secreto nas margens do Tejo

autoria P3

// data 27/09/2017 - 16:23

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"Na margem sul, perto de Lisboa, existe uma praia esquecida, banhada pelo Tejo. (...) Para uns, apenas uma praia perdida no tempo, para outros um lugar onde se luta para viver", descreve o fotógrafo Nuno Andrade, no seu website. É a pesca da amêijoa que faz reunir diariamente um grupo de homens desempregados ou precários em busca de uma fonte de rendimento extra. "Os que habitam este enclave levam vidas completamente à margem da sociedade; aprenderam a viver sem contar com nada, apenas com a maré, que vem sempre à hora marcada", explicou o fotógrafo ao P3, em entrevista. "De todos, apenas um (o Guerra) é residente permanente no local. Habita uma pequena barraca de madeira que funciona como ponto de encontro do grupo. Os restantes habitam nos bairros vizinhos, os do Laranjeiro e Miratejo, e realizam um movimento pendular entre estas zonas e a praia da Ponta dos Corvos." O quotidiano destes pescadores de água doce "segue o ritmo das marés". Quando a maré baixa, apanham a amêijoa; quando sobe, abandonam o local rumo aos pontos de venda.

 

"As dificuldades que enfrentam são imensas. Muitos deles não têm família e sentem-se completamente abandonados e excluídos da sociedade. O pouco dinheiro que ganham, que lhes permite apenas sobreviver, mantém-nos prisioneiros do limiar da pobreza." A apanha da amêijoa não é livre de riscos; Nuno Andrade afirma mesmo que "são demasiados aqueles que encontram a morte" durante o exercício da actividade. "O risco é constante e surge de forma inesperada. Principalmente no Inverno, com o chegar das neblinas e dos nevoeiros matinais", refere. A velocidade com que as águas sobem e a força gerada pelas correntes fazem com que, por vezes, sejam apanhados de surpresa e sejam arrastados para o centro do rio. O baixo declive da margem, que a torna quase invisível a partir do centro do rio, faz com que os pescadores se desorientem e tenham dificuldades em voltar para terra. Assim se dão alguns dos acidentes no local.

 

Nuno Andrade conheceu esta pequena comunidade em 2014 e, até hoje, garante, permanecem fortes os laços de amizade que criaram. "Este grupo cativou-me pela sua enorme capacidade de contrariar as adversidades e pela sua genuína generosidade. Podem estar numa 'maré-baixa', mas não desistem de perseguir o sonho de poder ter o que lhes devia ser de direito: uma casa, educação, bem-estar, saúde, comida e qualidade de vida." O projecto Maré Baixa resulta de mais de um ano e meio de visitas e registos e encontra-se, presentemente, em exposição no Mosteiro de Tibães, em Braga, ao abrigo do Festival Internacional Encontros da Imagem, até 29 de Outubro.

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