Street art

Desenlata: um festival de arte urbana para descobrir as fábricas de conservas de Matosinhos

Entre sábado e terça-feira, Matosinhos recebe a terceira edição do Desenlata. Entre as várias actividades programadas, há a visita guiada por um roteiro de trabalhos realizados em antigas conserveiras e a pintura colectiva de um mural de 150 metros

Texto de André Vieira • 01/09/2017 - 09:50

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Já foram mais de cinquenta as fábricas de conserva em actividade no concelho de Matosinhos. Actualmente os dedos de uma mão chegam para contar as que ainda existem. Em Matosinhos-Sul, onde se concentravam a maior parte, resistem um par delas que coabitam com as ruínas dos edifícios das que foram desaparecendo desde os anos setenta, altura em que começa o declínio da indústria que, a par do Porto de Leixões, foi o motor do desenvolvimento de uma terra banhada pelo mar. São alguns desses edifícios, outrora local de trabalho de milhares de pessoas, que servem agora de tela para o roteiro de arte urbana do festival Desenlata, cuja terceira edição, composta por mais actividades, arranca este sábado, 2 de Setembro, e se prolonga até terça-feira.

 

“O objectivo principal é preservar a memória da indústria conserveira”, diz o curador do evento, Filipe Granja, que iniciou o festival em 2015 como complemento da dissertação do mestrado em Design da Imagem, tirado em Belas Artes. Foi em Matosinhos que nasceu e foi nos edifícios abandonados das fábricas de conservas que começou a pintar, ainda em adolescente. Não era esse o único motivo da visita aos edifícios. Serviam também essas “invasões” para fazer alguma “arqueologia industrial”, conta. Faliram as fábricas, ficou para trás o arquivo, esquecido nas instalações.

 

Actualmente, com 28 anos, o artista com base de trabalho na Rua da Madeira, no Porto, no mesmo local onde funciona o espaço expositivo dedicada à street art, BECUH, insiste em tornar visível a imagem do abandono dos edifícios das antigas fábricas, agora sem vida.

 

Desenlata, “palavra que não está no dicionário”, tem a ver com essa ideia de abrir os edifícios às pessoas “para alertá-las e mostrar-lhes que aqueles espaços podiam ter outra utilidade”. Cria-se um roteiro naquele quarteirão, entre a Avenida Menéres, Rua Sousa Aroso e a Brito Capelo, com trabalhos de artistas nacionais e estrangeiros. Este ano, à imagem do que aconteceu no ano passado, são dez: Hazul, Godmess, Third, The Caver, Padure, Samina Lapiz (Nova-Zelândia), Heitor Correa (Brasil), JAS e Manuela Pimentel. Os dois últimos ligados às artes plásticas. “Queríamos diversificar e abrir o evento a outras artes”, explica.

 

Tudo para fazer chegar a mensagem

Esta sexta-feira faz quatro anos desde que a lei que regula a realização de graffiti entrou em vigor. Lei essa que pune com coima entre 100 a 25 mil euros quem pintar em monumentos, autocarros, comboios ou metropolitanos e imputa ao infractor a responsabilidade de suportar as despesas decorrentes da limpeza das mesmas.

 

Desde a primeira edição que a organização aborda a autarquia local na tentativa de garantir um apoio. Este ano foi a primeira vez que conseguiram garanti-lo. “É apenas um apoio institucional. Cederam-nos um espaço para podermos montar uma exposição e isentaram-nos do pagamento de licenças de ruído e de ocupação da via pública”, diz. Os trabalhos que fazem parte da street art tour são feitos de forma “ilegal”. Tendo isso em conta, explica que as obras não são pintadas directamente nas paredes. São trabalhadas em papel e posteriormente coladas nos edifícios: “Assim são mais fáceis de remover”. Não é por isso que o tempo de vida das pinturas diminuiu. À excepção de uma das obras, todas as outras ainda lá estão e em bom estado de conservação. Com isso ganha o roteiro que com os novos trabalhos cresce este ano para o dobro.

 

Esta é a única atividade que não conta com o apoio oficial da câmara. Todas as outras têm o aval da autarquia. Além da visita guiada pelo próprio curador, conhecido no meio como mynameisnotSEM, marcada para sábado e domingo às 16h, há nos mesmos dias, entre as 12h e as 20h, a pintura de um mural colectivo com 150 metros num dos muros da Escola Secundária Augusto Gomes que conta com a participação de 22 artistas, onde será também ministrado um workshop de graffiti pelo artista DUB. Dia 4 inaugura na Loja Interactiva de Turismo de Matosinhos a exposição Arte na Conserva onde estará exposto o resultado da intervenção de dez criativos que pintaram sobre rótulos de latas de conserva de dois quilos. No último dia, terça-feira, há uma visita guiada à Fábrica de Conservas Portugal Norte, que termina com degustação. À excepção da última, que custa cinco euros, todas as outras são gratuitas. As inscrições deverão ser feitas via email – o endereço está disponível no Facebook do evento.

 

O festival é realizado sem qualquer apoio financeiro externo. Todos os artistas que participam no evento contribuem de forma colaborativa, arcando com as despesas do próprio material. O único retorno financeiro que poderá ser obtido está dependente da venda do merchandising oficial, que no ano anterior “não ultrapassou os 50 euros”. Para o curador, retorno maior será outro: “Queremos essencialmente fazer a mensagem chegar ao público que recebermos”.

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