Sara Lopes

Arte Urbana

Olá, o meu nome é Porto e esta é a street art que tenho para mostrar

De Tuk-Tuk ou a pé, já é possível descobrir as ruas e paredes do Porto através da arte urbana — e na companhia de GodMess, Frederico Draw, SEM ou Third

Texto de Pedro Castro Esteves • 01/08/2017 - 11:27

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“Olá, o meu nome é Tiago, o meu nome artístico é GodMess. Este é o Becuh, um atelier e um espaço de criação”. Estão quinze pessoas em volta de uma mesa. Na Rua da Madeira, nas traseiras da Estação de São Bento começa uma das iniciativas que quer pôr o público em contacto com a arte urbana e com artistas da cidade. O Becuh (Badass Experiences by Creatives from Urban) acolhe oficinas de 22 de Julho a 26 de Agosto e quer dar oportunidade às quinze pessoas que recebe por sessão – número máximo de inscrições – de aprender, criar e contactar com arte urbana. Será assim todos os sábados, até ao último do mês de Agosto. A “aula” de hoje é dada por GodMess.

 

Mas a iniciativa promovida pela Porto Lazer não se fica por aqui. É que se sabádo é dia de fazer, domingo é dia de passeio. Isto se o passeio for dado num Tuk-Tuk na companhia de artistas da cidade como GodMess, Frederico Draw, SEM ou Third. O interesse é tanto que já não há vagas. A pé a história já é outra. Durante o próximo mês são muitas as datas disponíveis para percorrer as ruas do Porto em busca do que escondem as paredes da cidade. As visitas são guiadas por alunos de Artes Visuais e Tecnologias Artísiticas da Escola Superior de Educação e são sempre gratuitas.

 

E o que escondem essas paredes? O P3 meteu-se num Tuk-Tuk com Tiago Gomes (GodMess, nas paredes) e percorreu as ruas da cidade em busca delas. A primeira paragem é perto do mercado do Bolhão. Há caixas de eletricidade pintadas “de fresco” para ver. A ligação ao Porto está sempre presente. Nas caixas, onde imperava o branco, há agora mapas antigos, histórias e figuras da cidade.

 

A arte urbana sai novamente à rua a convite da Câmara Municipal do Porto. Esta edição foca-se somente na arte urbana. A iniciativa é, na opinião, de GodMes importante para mostrar que “já não são só um bando de putos a pintar coisas nas paredes”, aqueles que preenchem os espaços da cidade.

 

Mas pintar em paredes legais no Porto ainda é difícil. “Não há paredes legais na cidade. Matosinhos tem duas, Aveiro quatro ou cinco. Em Lisboa então, são aos pontapés. As pessoas começam muito novas a querer pintar coisas. É preciso haver espaços onde se pode treinar e praticar espaços de livre acesso. Não só espaços como a parede de Restauração, como vamos ver”, adianta Tiago.

 

Arte provisória

Lá, na Rua da Restauração, estão expostos trabalhos de artistas de diferentes latitudes. Este ano, o foco é mais global. Ao lado de trabalhos portugueses, Venezuela, Brasil e Estados Unidos, aterram no Porto pela mão de artistas que quiseram deixar a cor e uma mensagem nas paredes da cidade.

 

A tecnologia e o distanciamento que provoca, a marginalização do grafiti na cidade, a imigração, a tradição ou puro abstracionismo. São temas que afectam o mundo e também a cidade. É o que deixam nas paredes os artistas seleccionados pela Câmara do Porto para expor as obras no Mural Colectivo da Restauração. São mensagens temporárias, já que serão apagadas para surgirem outras novas, daqui a um ano.

 

Quando questionado acerca do carácter efémero da exposição, GodMess é claro: “Quem trabalha na rua está à espera de tudo. A chuva pode destruir, pode passar alguém e rasgar, A rua tem essas questões todas. Quem faz arte urbana tem que estar mentalizado que pode durar cinco minutos ou cinco anos.”

 

Este tour pela arte urbana no Porto é uma das poucas iniciativas que permite que artistas locais – e não só – mostrem o seu trabalho. A relação com a Câmara é mais fácil, especialmente quando GodMess relembra o “contexto repressivo” durante os anos de Rui Rio, mas ainda há espaço para melhorar. A criação de um GAU (Galeria de Arte Urbana), à imagem do que tem Lisboa, podia alavancar a arte urbana portuense para outro patamar.

 

Até lá, iniciativas como esta vão ter de chegar para saciar o apetite de quem quer redescobrir o Porto através da rua. O boom turístico na cidade tem ajudado à emancipação de uma arte nem sempre vista com bons olhos. O Mural da Trindade pode ajudar a desconstruir essa ideia. Até porque, o “carácter multifacetado” e imediato da arte urbana, distancia-a, na opinião do portuense, da arte contemporânea, “desconexa da população”. São 250 m2 divididos por Hazul e Mr. Dheo que impressionam quem por lá passa. 

 

A próxima paragem é o Cinema 5D. O Tuk-Tuk corta por ruas estreitas, por terreno inclinado e empedrado. A descida íngreme acaba na fachada que Vhils desenhou no Cinema 5D. Esculpido na pedra, é uma das intervenções a visitar durante a viagem. O projecto traz à baila a presença de artistas como Vhils nos maiores museus do mundo. É um pretexto para GodMess lembrar a forma como a arte urbana se pode adaptar a qualquer ambiente.

 

O Porto olha-se ao espelho

Estacionamos na Rua Nova de Alfândega, para ver Mira de Daniel Eime. A cidade olha para a fachada, vê uma idosa retratada e olha-se ao espelho. “O Daniel, que trabalha com stencil, quis retratar a população envelhecida nesta zona da cidade. A figura representada não é ninguém em especifico, apesar de já terem visto ali a Rosa Lobato de Faria”, acrescenta.

 

Embora GodMess reconheça que a cidade tem cada vez menos espaços para pintar, há um contentamento por já não se ver a street-art como uma ferramenta de camuflagem de edifícios velhos. A última paragem do Tuk-Tuk é no an.fi.tri.ão, de Frederico Draw, perto da Ponte D.Luís, habituada aos olhares de turistas. Pouco tempo depois, estamos de volta ao local onde começamos. A aula de GodMess no BECUH está quase a começar.

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