Aldeias indígenas brasileiras "engolidas" por São Paulo

autoria P3

// data 03/08/2017 - 11:33

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A "cereja no topo do bolo" do Pico de Jaraguá — uma montanha da periferia da cidade de São Paulo, Brasil — são as várias antenas transmissoras dos sinais da Rede Globo ou da Rádio Cultura. A visão nada teria de particular caso a montanha não servisse de morada de um povo indígena há mais de 500 anos. No local, o contraste entre a antiguidade e a modernidade não poderia, à partida, estar mais explícito; porém, quis a História que essa montanha não fosse um símbolo de contraste, mas sim de contágio. A cidade de São Paulo, que é a mais populada de todo o continente sul americano, foi-se expandindo até "engolir" o Pico de Jaraguá, motivo por que actualmente os povos indígenas lutam de muitas formas por manter a sua identidade e o seu direito à propriedade - que aumenta de valor quanto mais se expande a cidade. Dentro das aldeias indígenas, que se assemelham a aglomerados de favelas comuns, é já comum a utilização de telemóveis, televisões e outros "instrumentos do homem branco" que são difíceis de manter fora do perímetro guarani. Mantêm-se as casas de culto, que imprimem nas gerações mais jovens a noção de cultura indígena: a religião, a língua, os valores. Dentro desta comunidade, cuja origem temporal se desconhece, o papel da mulher estava ligado, segundo a estudante de jornalismo e autora das fotografias Victória Silva, a "violência e preconceito". "O que é ser mulher indígena hoje?", questiona. "Quais são as histórias dessas mulheres? Quais as suas trajectórias, lutas, conquistas e desafios? Como é que o feminismo trata a mulher indígena?" Para encontrar respostas, Victória debruçou-se sobre a realidade de Tekoa Itakupe - nome que significa "Atrás da Pedra", ou "Atrás do Pico", em português. A aldeia é populada por cerca de 40 indígenas das etnias Guarani Mbya, Kaiowá e Pataxó, cuja rotina estudou de forma aprofundada. "A vida da aldeia começa as 4 horas da manhã todos os dias. Não existe uma divisão de trabalho para mulheres ou homens, todos trabalham por igual para construir a aldeia que está ganhando, a cada dia, uma nova composição", explica a estudante, referindo a construção de um novo cemitério e de uma casa de reza. "Os homens que quiserem morar em Tekoa Itakupe terão que assumir um papel semelhante ao da mulher: lava roupa, lavar louça, etc. Aqui não existe essa separação de 'homem é homem' e 'mulher é mulher'. Toda a gente se levanta e trabalha de forma igual”, explica. Dentro da aldeia existe uma comissão formada exclusivamente por mulheres, chamada "Kunhá’Gué Règuá", que tem como objetivo lutar contra discursos que excluem ou desrespeitam a cultura dos povos tradicionais. Deste modo, lutam não só por igualdade de género dentro da sua própria comunidade, mas também pelos direitos dos povos indígenas no contexto de São Paulo, a grande metrópole, pelo direito à diferença e propriedade, que se encontram ameaçadas pela invasão territorial da cidade.

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