Irão: jovens entre a depressão e a insurreição

autoria Ana Marques Maia

// data 19/07/2017 - 14:43

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"Medo." "Enquanto escrevo esta entrevista sinto medo. Eu nem sequer consigo expôr o meu trabalho no meu país devido à censura. Aqui, um fotógrafo é considerado um criminoso. A fotografia de rua não constitui nenhum problema, excepto em Teerão. Aí a utilização de um telemóvel para fotografar torna-se imperativa; uma câmara fotográfica chama demasiado a atenção e existe o risco de detenção por parte da polícia." Falamos do Irão. Falamos de Farshid Tighehsaz, fotógrafo documental iraniano cujo trabalho "From Labyrinth" se debruça sobre "os evidentes sinais de depressão" da sua geração. Farshid nasceu a 21 de Julho de 1981, em Tabriz. "Ser jovem no Irão é sinónimo de restrição: sentimos restrições ao nível da liberdade política, artística, cultural, económica, educacional, relacional, sexual, etc." Durante o desenvolvimento deste projecto, Farshid deparou-se com a prevalência de um sentimento em particular: o medo. Medo do futuro, medo de extermínio, medo da sexualidade, medo da solidão, medo da infelicidade. "Estes sinais são tão evidentes que, neste momento, estou a trabalhar num projecto sobre o suicídio jovem no Irão – que constitui uma prova cabal de depressão." As regras de conduta impostas pelo governo após a revolução de 1979, que têm por base as mesmas ditadas pelo islão, inibem a liberdade de expressão dos iranianos. "Hoje em dia, as vida dos jovens está imersa em conflito: de um lado, o que eles desejam, do outro, a realidade. Quem assistiu às últimas eleições, as de 19 de Maio deste ano, viu claramente o tipo de pensamento que impera entre os jovens. Olhar para o movimento White Wednesdays [, um movimento feminino que se insurge contra as regras de vestuário impostas pelo estado,] reflecte exactamente o que se passa." Utilizando o hashtag #whitewednesdays, cidadãs iranianas têm postado imagens e vídeos usando hijabs ou peças de roupa de cor branca no instagram. O movimento "My Stealthy Freedom" exige também mudanças profundas ao nível do código de vestuário. A namorada de Farshid aproveitou a oportunidade para se dirigir ao P3 sobre a matéria. Começou por citar passagens do Alcorão, aquelas em que é determinado o papel da mulher: "Al Ahzab, versículo 61: 'Ó Profeta, dize a tuas esposas, tuas filhas e às mulheres dos fiéris que (quando saírem) se cubram com as suas mantas; isso é mais conveniente, para que distingam das demais e não sejam molestadas'" ou "Al Ahzab, versículo 35: 'E permanecei tranquilas em vossos lares, e não façais exibições, como as da época da idolatria; observai a  oração, pagai o zakat, obedecei a Deus e ao seu Mensageiro, porque Deus só deseja afastar de vós a abominação, ó membros da casa, bem como purificar-vos integralmente.'" "Estas são as leis por que se governa a nossa sociedade", comentou. "É melhor que nós, mulheres, fiquemos em casa. Mas eu gosto de sair com o meu namorado, com a minha família e amigos. Eu gosto de usar saias coloridas, de dançar e de beber cerveja. Quando saio com o Farshid, temos medo que a polícia nos detenha. As pessoas jovens não vivem confortavelmente no Irão e protestam somente pelos seus direitos básicos." Farshid chamou "From Labyrinth" ao projecto por sentir que vive num labirinto ideológico. "Quando olho para o meu país, a partir de qualquer ângulo, ele parece-me um labirinto. Afinal, o Irão fica no Médio Oriente, a região mais complexa do mundo." O trabalho do fotógrafo pode ser visto através da sua conta de instagram.

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