Nelson Garrido

Porto

Do apartamento para a rua: uma “história de amor” chamada Galeria Oitavo

De uma casa na Cooperativa dos Pedreiros, no Porto, nasceu uma galeria de arte que se espraiou até ao Antigo Hospital de Crianças Maria Pia — a exposição "Dèjá-vu" pode ser vista até 15 de Julho. Mais está para vir. Obra e graça de Rita Vila-Chã e Francisco Moura Relvas

Texto de Amanda Ribeiro • 13/07/2017 - 10:42

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A tese de mestrado em Arquitectura andava a massacrá-la. Ou antes, a perspectiva de a fazer. Até que um dia, em Janeiro, estava Rita Vila-Chã a tomar café com amigos e uma ideia passou-lhe pela mente. “Vou abrir uma galeria de arte em minha casa”, ouviu-se a dizer, algo ciente da pequena loucura que acabara de proferir. Acontece que a audiência, em vez de confirmar a insensatez, arrebatou-se: “Ficaram tão entusiasmados que eu não fui capaz de voltar atrás”, diz Rita, entre risos. “E com a reacção deles percebi que isto podia ter mesmo potencial.”

 

Chegada a casa, esboçou o que o seu apartamento na Rua da Alegria, no Porto, iria ser. E, três semanas depois, inaugurava a primeira exposição, In.formalidades – nada é o que parece, com trabalhos de artistas como José Faria, Miguel Refresco e Flora di Martino. Assim começou a Galeria Oitavo. Assim nascia o novo projecto profissional e “estilo de vida” de Rita, agora que “a arquitectura está em stand by”. E assim nascia uma “história de amor”: é que entre os interlocutores supracitados estava o cineasta Francisco Moura Relvas, o agora namorado que entretanto se juntou à ideóloga na gestão de tudo isto, deste apartamento-galeria que já estendeu o seu raio de intervenção até ao Antigo Hospital de Crianças Maria Pia (mas já lá vamos).

 

É precisamento a partir do oitavo andar da distinta torre da Cooperativa dos Pedreiros, magnífico edifício projectado por David Moreira da Silva e Maria José Marques da Silva, que ouvimos esta narração. As janelas atravessam a sala e oferecem uma vista desafogada sobre a cidade até ao mar. A luz não perdoa, nem magoa. O relato de Rita, 30 anos, vai sendo carinhosamente interrompido pelo passeio de dois gatos, o tímido e vagaroso Basquiat e a simpática London, que a dada altura se abandona no colo da escriba — os felinos também estão presentes nas inaugurações, ainda que refugiados dentro do quarto.

 

Por todo o lado há testemunhos da última exposição, In.visibilidades, inaugurada em Maio. O tampo de vidro da mesa que acolhe a conversa protege as ilustrações de Filipa de Carvalho. Os vidros emoldurados são o palco de um jogo de perspectivas chamado Realidade Aumentada, feito por Ana Aragão. Na casa de banho (sim, na casa de banho), ali ao lado das escovas de dentes, encontram-se gravuras de Susana Bravo, enquanto no quarto há o diálogo entre Daniel Moreira e Rita Castro Neves e no corredor uma instalação de Leonor Parda. Nas paredes expõem-se obras de Hazul, de Mariana Baldaia, de José Augusto Martins, arquitecto que é também o primeiro artista representado pela galeria (e pai de Rita). Os preços estão indicados, a folha de sala também.

 

É um conceito “diferente”, claro. E, pelo que parece, agrada a observadores e criadores: a primeira exibição, recorda a arquitecta, atraiu cerca de 200 pessoas. Mal se conseguiam mexer dentro do T2. “Foi um abuso. Foram os elevadores abaixo, a porteira ligou-me a perguntar o que se passava porque os vizinhos estavam em pânico, toda a gente a subir e a descer pelas escadas de serviço”. Agora, depois desse “boom escandaloso”, tudo tem sido mais controlado, mas não menos popular. “Porque não é só ir a uma galeria ver os trabalhos”, conclui Rita. “É ver a vista, entrar num sítio que é de uma pessoa e ainda para mais num prédio icónico, que nos deixa sempre curiosos”. E assistir ao pôr-do-sol com uma pequena multidão a bebericar uma bebida concedida por um patrocinador não é desconfortável para a proprietária? “Nada. Sempre gostei de ter a casa cheia de gente. As pessoas entram e, mesmo que não as conheça, tenho mais à vontade para as conhecer. E isso é bom.” O público, aliás, é convidado a explorar a casa, a “mexer em tudo”: a folha de sala indica o caminho. “Há sempre coisas em todo o lado. Podes abrir um armário e estar lá uma obra. E o facto de as pessoas poderem explorar isso é divertido.” Quem perdeu a vernissage e quer espreitar, tem de marcar a visita: pode não parecer, mas há quem viva aqui. 

 

Na rua, a Galeria Oitavo é um saltimbaco

“Aproximar a arte das pessoas” é a “essência” do projecto. Também dos artistas. “Apesar de termos muitas galerias na cidade, estão todas lotadas”, resalva Rita, que está aberta a receber criadores dos mais variados estilos que não encontrem espaço. Esta galeria tanto vende ilustração, como pintura a óleo e instalações. “Todas as coisas conseguem conviver”, afiança.

 

Esta diversidade é também bem visível no n.º 827 da Rua da Boavista onde, até sábado, 15 de Julho, das 15h às 19h, está patente Dèjá-vu ­— até agora, todas as exposições com cunho Galeria Oitavo exploram dicotomias. A convite da Associação do Hospital de Crianças Maria Pia, os dois curadores convidaram 21 artistas para explorarem o passado do palacete principal do antigo hospital, cruzando-o com o actual contexto socioeconómico. São mil metros quadrados, dois pisos, dez salas, muitas obras para venda num edifício cheio de memórias.

 

Se Ana Aragão e Mariana Sendas replicam salas dentro de salas, ±MAISMENOS± atira-nos para um corredor negro e aramado de onde sobressai a palavra leaving — ou será living? Há os retratos intergeracionais de Rita Castro Neves, o interventivo muro esburacado de Tiago Casanova, a nuvem (de Hiroshima) dos próprios Francisco e Rita (na foto), os murais do Colectivo Rua. E muito mais: estão expostas obras de Júlio Dolbeth & Dylan Silva, Colectivo D-Frente, Joana Fraga, entre outros (e havia vídeo de Vasco Mendes e video mapping de Grandpa’s Lab & Monika Reut). Uma pequena amostra pode ser vista aqui.

 

É um ponto de viragem, talvez, do conforto do lar para a rua. O par já está a preparar a próxima mostra neste mesmo edifício, em Novembro. E, a convite da Metro do Porto, está a tramar qualquer coisa para a estação da Trindade. E o apartamento? Fecha a porta? “Não”, garante Rita, até porque, graceja, engraçou com a ideia de “a decoração ir mudando de xis em xis tempo”. Agora talvez só acolha uma nova exposição no próximo ano, provavelmente com trabalhos mais intimistas e direccionados a compradores. O oposto da vida exterior, onde a Galeria Oitavo é irrequieta, “itinerante, quase um saltimbanco”. Plano: explorar espaços abandonados na cidade. Premissa: “Estar sempre próxima das pessoas e dos artistas”. 

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