Retratos “de palavras, poucas”

autoria Amanda Ribeiro

// data 08/06/2017 - 10:18

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Desenha "desde sempre". Ou, "pelo menos", desde que se lembra. Mas durante mais de 20 anos José Soares esteve afastado da arte, da pintura, da criação. Depois de ter abandonado os estudos artísticos na década de 1980 e de ter deixado o Porto, onde nasceu, regressou entretanto à cidade e voltou também à escola, inscrevendo-se em 2009 na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Precisamente porque a "ausência" do desenho na sua vida se estava a revelar "intolerável". Terminado o curso em 2013, lá reuniu forças para montar um atelier de pintura e trilhou o seu caminho, assente na "solidão" do seu pensamento e na troca de ideias com a companheira. E no óleo e no carvão, matéria recorrente no seu trabalho. "Tenho um fascínio pelo carvão, é algo com uma propriedade de primordial, básico, que permite uma distinção muito 'clara' do que é claro e do que é escuro e que, mesmo sendo de origem sintética (algum dele), contém em si uma ideia de 'natural'", escreve o artista num email enviado ao P3. Usa-o para "retratar" os outros de uma forma que a fotografia, diz, não consegue, captando a sua "individualidade" e dando sempre uma atenção particular "à representação do rosto e mãos dos modelos". Na exposição "de palavras, poucas", que está patente no Porto no Mercado 48 (Rua da Conceição, 48) até 14 de Junho, mostra um outro lado do seu trabalho, bem mais "descomprometido": São "desenhos simples", até mesmo "brutos", de pessoas que frequentam a loja. Primeiro, José fotografou os modelos com referências do espaço (como o cão Bala, sempre presente), depois imortalizou-os no desenho. Trabalhos que "valem por si": "Valem pela imagem de si próprias e não por quererem dizer algo — por essa razão o título é 'de palavras, poucas'. São retratos daquelas pessoas mas podiam ser retratos de quaisquer outras, a individualidade aqui só tem relevância para quem conhece ou se relaciona com essas pessoas".

Eu acho que