Laura Sequeira Falé

Crónica

Duplo Espaço: o atelier de Rodolfo Bispo

Laura Sequeira Falé gosta de ateliers e mostra-os no blogue Duplo Espaço. Desta vez, visitou o artista Rodolfo Bispo

Texto de Laura Sequeira Falé/Duplo Espaço • 09/05/2017 - 17:27

Laura é a autora do blogue Duplo Espaço onde apresenta ateliers de artistas

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O Rodolfo Bispo vive em Odivelas, numa rua que é estudada no curso de Arquitectura como exemplo de péssimo plano urbano. É assim que ele se posiciona: está inevitavelmente onde está. Dá-me a entender que estamos todos, na maior parte das vezes, numa posição que nos constringe, mas se formos inteligentes podemos usar essa posição como motor. Há uma infinidade de possibilidades, mesmo tendo em conta as limitações inevitáveis e é possível, segundo ele, ter uma família, um trabalho consistente e um atelier a convergir no mesmo espaço.

 

A primeira coisa que reparei foi na casa clean que contrasta com aquilo que os seus trabalhos são: referências sobrepostas, rápidas, com muitas camadas de tinta, e sem medos. Os seus trabalhos são livres, vivos e felizes, que se desenvolvem num espaço com uma luz invejável.

 

O seu espaço de trabalho é partilhado com a Sara, que é designer, e a filha de ambos, que tem dois anos. Trabalham a partir de casa e não têm zonas específicas para cada um. Mesmo não tendo um espaço próprio, quando está a preparar exposições, o Rodolfo toma conta de tudo o que é chão, paredes e mesas e todo o espaço é seu.

 

Às vezes trabalham em conjunto: a bebé pinta desenhos que depois servem de inspiração e referência para o Rodolfo. Há Abelhas Maias, personagens da Disney e outros desenhos animados que, à partida, não teriam outro fim senão o de entreter durante alguns minutos. É também frequente o Rodolfo fazer esboços que a Sara acaba por utilizar no seu próprio trabalho.

 

À medida que ia tirando debaixo da cama inúmeras telas enroladas e dobradas, fui reparando que aquilo que me chamava a atenção no primeiro olhar não era o que me fazia ficar presa ao trabalho. As camadas que o seu trabalho tem são tantas e com origens tão diferentes que somos obrigados a mudar de pensamento à medida que o olhar vai passando pela pintura. Mas nem os seus trabalhos nem o discurso do Rodolfo são confusos. Pelo contrário: ele fala sempre de uma forma tão limpa e despojada que não há como não querer continuar a conversa.

 

As questões políticas são uma das suas preocupações e isso agudizou-se com o nascimento da filha. Perturba-o que as pessoas vejam sempre a partir do lado ocidental, americanizado e europeu dos problemas e que não pensem que os terroristas, às vezes, somos nós. É também por isso que desenha e que pinta tudo o que pode, sempre que pode. Tem a certeza que não pode mudar ninguém, mas às vezes uma referência qualquer num quadro seu chama a atenção a alguém que virá ver com mais detalhe. Esse momento pode ser decisivo para o sujeito se consciencializar, ainda que sem querer.

 

Falar de espaço, no caso do Rodolfo, é falar essencialmente do seu espaço mental. A sua expressão não está espalhada pela casa porque ela não é um atelier, mas fica imediatamente clara quando começa a falar. As suas preocupações são desenvolvimentos daquelas que já estavam presentes no curso de Pintura, mas agora sente que consegue explicá-las melhor.

 

O sentido de humor do Rodolfo é apuradíssimo. De facto tentou fazer stand up, mas a experiência não foi bem sucedida. O stresse que sentia em palco era mais do que conseguia aguentar e desistiu dessa ideia. Apesar disso, o seu twitter é uma boa expressão daquilo que quero dizer e espelha também que tipo de preocupações tem.

 

O Rodolfo acha sempre que aquilo que pinta é óbvio e auto-explicativo. Sempre que lhe pedi para me clarificar qualquer coisa acerca dos seus trabalhos, era como se lhe estivesse a pedir para me descrever aquilo que estava à frente dos meus olhos. E tinha razão, estava. O que lhe interessa, diz-me, não é a perspectiva que ele tem sobre o que faz, mas de que forma as pessoas lêem e até onde vai a sua interpretação. O seu trabalho termina onde termina a tela, depois é a vez do observador. E ele gosta de ficar a ouvir o que as pessoas têm para lhe dizer, o que estão a ver que ele não viu.

 

Quando trabalhou no CCB depois do curso ter terminado teve duas experiências que o marcaram. Passou muitíssimo tempo a ler e começou a fartar-se de histórias, de romances. Começou a ler ensaios filosóficos e sente que os seus trabalhos ganharam outra dimensão. Como era assistente de exposição, ficava muito tempo no mesmo sitio a dar indicações para a casa de banho e, ocasionalmente, tinha conversas interessantes e diferentes sobre as obras que via todos os dias. Podia ouvir as pessoas que estavam absolutamente disponíveis para falar sobre a colecção sem medos.

 

Ultimamente tem desenhado em cadernos, muitas vezes padrões, formas repetidas, confirmando que há um certo descanso na repetição. Gosta de trabalhar com barulho: música, televisão, conversa, podcasts ou rádio, muitas vezes em simultâneo, e de ir apanhando as referências, de deixar ecoar nas suas pinturas e desenhos aquilo que está imediatamente ali. Os seus trabalhos demoram tempo a ver e todos eles têm elementos reconhecíveis, sejam escritos ou não.

 

O Rodolfo pinta até ao final da tela, usando toda a sua área. Diz que se entusiasma, mas que depois não sabe como esticá-la e engradá-la sem ferir a pintura. Algumas telas são pintadas com tinta de ardósia preta, apresentado possibilidades de intervir de outra forma no quadro depois de terminado. Como se houvesse sempre mais por dizer e o Rodolfo o previsse.

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