"The Naked Cowboy": o homem por detrás da lenda

autoria Ana Marques Maia

// data 18/04/2017 - 17:01

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Robert John Burke já foi candidato a governador do estado de Nova Iorque (2010), a Presidente dos Estados Unidos da América (2012) e já participou em videoclips de artistas como Cake ou Tyler Hilton, mas é como "Naked Cowboy" que é mais conhecido. O "Cowboy Nu" é músico de rua, veste apenas um chapéu de cowboy, umas cuecas, umas botas texanas e posiciona estrategicamente a guitarra para dar a ilusão de nudez enquanto percorre Times Square à caça de uns dólares. Uns piropos, umas piscadelas de olho e algumas canções improvisadas (ou não) enchem de notas a sua roupa interior e a sua guitarra folk. "Seja o que for que pensemos dele, quantos artistas em Times Square chegaram sequer perto do sucesso que ele alcançou?" É o fotógrafo norte-americano Darren Ornitz quem coloca a questão, retoricamente. Nenhum, na verdade. Desde 1997 que Robert acorda na pele de "Naked Cowboy" — e é nela que se deita também. "A personagem e o homem vivem completamente misturados", explica. Robert vê-se a si próprio como um símbolo da cultura e estilo de vida americanos. "Quem é a América? A América é um país em que o mais pequeno pode ganhar muito. Quem faz isso mesmo? Eu. Quem é que lidera a América? Eu. Quem é o homem livre mais celebrado na América por ser livre? Quem é que vive a América livre? Provavelmente eu, o número um. Quem é provavelmente o tipo mais famoso de Nova Iorque? Provavelmente, eu. Qual é a cidade mais famosa da América? Nova Iorque, eu. Eu vou ganhar tudo, açambarcar tudo... Porque é que toda a gente quer vir cá? Porque toda a gente acredita em gente como eu, porque todos querem ser como eu." Robert Burke nasceu em Cincinnati, no estado de Ohio, em 1970. Fez bacharelato em Ciência Política e pouco depois de terminados os estudos, rumou a Venice Beach, onde deu início à vida de "busker". Foi mais tarde que se estabeleceu em Times Square, onde diariamente anima os milhares de pessoas que por lá passam. "A maioria das pessoas não entende o grau de compromisso, de esforço e preparação que é necessário para manter o tipo de carreira que o Robert escolheu para si. E a verdade é que ele continua a ter sucesso, a progredir." Darren passou cinco anos a acompanhar Robert, periodicamente, e a leitura que faz do homem é algo ambígua. "Percebi, ao longo do tempo, que a personalidade do Robert é complexa e estratificada. Ao observá-lo em Times Square, não imaginei quão complexo fosse. É um homem de extremos. Uma das pessoas mais autocomplacentes que conheci, mas ao mesmo tempo também uma das mais simpáticas e empáticas. Aparentemente é duro, agressivo, um americano 'hardcore', mas também consegue ser muito suave, calmo e aberto. Assume posições fortes diante de todos, mas está sempre aberto a escutar outros pontos de vista; tem consciência de que não existe nada de sólido em qualquer tipo de pensamento ou opinião. Funciona muitas vezes por impulso, mas pode ser extremamente reflexivo. Tem consciência plena do seu papel e da sua posição na sociedade, mas ao mesmo tempo também parece muito confuso. É muito complexo. Aprendi muito com ele. Embora tenhamos diferenças acentuadas, sobretudo no que toca a política, o Robert deu-me a oportunidade de perscutar os meus próprios julgamentos e pensamentos através do contacto com tantas pessoas aparentemente diferentes de mim que conheci a seu lado. Aprendi que se escutarmos uma pessoa o tempo suficiente, encontramos sempre um pedaço de nós nela." O principal ponto de discordância entre Robert e Darren é político. O "Cowboy Nu", ao contrário do fotógrafo, é um ferveroso apoiante de Donald Trump e chegou mesmo a fazer campanha por ele diante da Trump Tower. "Muito do que o Naked Cowboy representa entra em contradição directa com o seu apoio ao Trump, que muitas vezes me confundiu. Por um lado ele apoia a ideia de que podemos ser quem quisermos ser, de que a verdadeira liberdade é aquela onde cabem as nossas ideias e valores, onde há tolerância. Mas politicamente, ele está alinhado com uma pessoa cujas palavras e acções reflectem o oposto diametral. Ainda tento convencê-lo de que ele é um libertário e que a mensagem que transmite é radicalmente diferente da de Trump. Talvez no dia em que Trump o marginalizar ele consiga entender isto." Darren lá estará para apoiá-lo, com certeza. Fotógrafo e performer tornaram-se amigos após cinco anos de trabalho documental. "O Robert deu-me acesso total à sua vida e passei os últimos cinco anos a fotografá-lo, inclusivé em sua casa, com a sua esposa Patty (que trabalha também como Naked Cowgirl), na rua, em eventos especiais e mesmo em reuniões familiares ou férias. Já por duas vezes visitei a sua família em Cincinnati. Somos pessoas muito diferentes, mas eu considero o Robert e a sua esposa Patty e a sua família como meus amigos." O audio que acompanha esta fotogaleria foi captado por Darren Ornitz, especialmente para publicação no P3.

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