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Fujifilm FIF Viseu

Viseu vai enviar postais à avó, que já morreu

A ideia é da fotógrafa brasileira Letícia Valverdes, vencedora da Residência Fujifilm, que irá realizar o projecto "Postcards To My Grandmother" em homenagem à sua falecida avó Crescenciana Espírito Santo, natural de Viseu

Texto de Ana Marques Maia • 16/03/2017 - 14:35

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A avó da fotógrafa brasileira Letícia Valverdes nasceu em Mondão, no distrito de Viseu, e era muito jovem quando emigrou para o Brasil. A sua identidade e hábitos lusitanos mantiveram-se graças ao convívio com a comunidade portuguesa residente em Baurau, São Paulo; a sua neta Letícia cresceu, por isso, a ouvir fado, a comer bolinhos de bacalhau, o que motivou a sua candidatura ao programa de Residência do Fujifilm Festival Internacional de Fotografia de Viseu, com o projecto "Portraits For My Grandmother" - que se destacou de entre quase duas centenas de candidaturas.

 

"Postais para a minha avó"

Crescenciana Espírito Santo era uma mulher "bonita e talentosa", garante a neta. "Era uma mulher de origem simples, mas de muitos sonhos. Tinha o cabelo ondulado e brilhante e por isto foi modelo de cabeleireiro. Amou um homem com o qual não lhe foi permitido casar; casou com aquele que o seu pai escolheu, o meu querido avô imigrante italiano Luca. Sem muitos estudos, viveu a sua vida de mulher trabalhadora no oficio de costureira (ou modista, como me dizia modestamente). Dedicou a sua vida aos filhos e à familia, com carinho." Assim a descreveu Letícia, em entrevista ao P3.

 

Em idade avançada, Cresciana (ou Ana, como preferia ser tratada) desenvolveu Alzheimer e "com a perda da memória, Portugal cresceu dentro de si". "Falava muito em memórias que, na verdade, acredito que fossem fantasias ou memórias coletivas de familia e da comunidade com quem tinha crescido."

 

Com o projecto "Postcards for my Grandmother", Letícia pretende explorar o facto de a avó recordar (ou imaginar) tão vividamente aquilo que tinha deixado para trás, em Portugal. "Gostaria de encontrar pessoas que pudéssem ter sido suas amigas em diferentes estágios da vida e convidá-las a escrever-lhe um postal. Podem escrever-lhe sobre a vida na região, sobre o que é importante para elas." De um lado do postal um retrato desse amigo num local que considere íntimo e emblemático, um detalhe de um objecto querido, e do outro a mensagem manuscrita. 

 

Crescenciana faleceu em 2006, com 85 anos, sem nunca ter tido a chance de regressar a Viseu. "Gostaria, talvez que lhe enviassem mensagens a dizer-lhe que não faz mal que nunca tenha voltado porque o espírito lusitano nunca se esvai." Escolhe este método por acreditar que a avó adoraria ter recebido postais de Portugal, apesar de nunca os ter recebido. "É uma linguagem do tempo dela que eu ainda admiro." 

 

No ano da morte de Crescenciana, Letícia, a mãe e irmãs viajaram até ao local onde ela nasceu e depositaram as suas cinzas "nas montanhas que ela tanto desejou rever". Conheceram o padre de Mondão e pessoas que se lembravam de uma família que partiu para a América do Sul há muitos, muitos anos atrás. "Vi muitas Anas, com expressões, corpos e sorrisos parecidos com o dela. Foi doloroso pensar que nunca a pudémos trazer cá em vida", explicou.

 

A participação no Fujifilm FIF Viseu

A vitória no concurso à Residência Artística do Fujifilm Festival Internacional de Fotografia de Viseu permitirá  a Letícia desenvolver o projecto a que se propôs in locodurante o período de dois meses, Abril e Maio de 2017. A fotógrafa irá visitar aldeias semelhantes às de Crescenciana, contar a sua história e pedir aos participantes que escrevam mensagens à avó. "Este método não é novo para mim, já o apliquei nas ruas de Londres, de Kuala Lumpur e Brasília", motivo por que se sente à vontade para dar aos retratados asas à espontaneidade. 

 

O resultado do trabalho de Letícia Valverdes será uma série de (pelo menos) 48 íntimos e poéticos postais, que serão expostos no Festival de Fotografia que irá decorrer entre 4 de Maio e 5 de Junho de 2017. "O projecto não ira tocar apenas aqueles que lhe escrevem os postais; será sobretudo catártico para mim, que nunca tive a oportunidade de a trazer para junto da sua amada 'pátria'. Sei que ela teria amado receber estes postais destes amigos que nunca teve e que imaginava ter tido."

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