Elas são dominatrix “porque eles merecem”

autoria Ana Marques Maia

// data 10/01/2017 - 16:14

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As mulheres que Max Eicke retratou pouco ou nada têm em comum excepto a profissão: elas são dominatrix. O dicionário Priberam define-as como "mulheres que, num relacionamento sexual ou em actividades de bondage, dominação ou sadomasoquismo, exercem controlo psicológico e físico sobre um parceiro submisso". Não existe consenso sobre a natureza da actividade em questão, se exercida a troco de remuneração, como é o caso das mulheres que Eicke fotografou. Tratar-se-á, nesse caso, de prostituição? Apesar de não existir cópula, a mulher dominatrix tem como objectivo a gratificação sexual do seu cliente  mesmo que adopte, para esse fim, comportamentos que seriam por muitos interpretados como de natureza não-sexual. Para uma das profissionais que Max entrevistou não existe sombra de dúvida: "é claro que isto é um tipo de prostituição". "Dizer 'eu sou dominatrix, sou melhor do que isso' seria um absurdo. Mas é diferente. Um prostituto ou prostituta permite que alguém se aproxime fisicamente; o trabalho de dominatrix passa por permitir uma proximidade psicológica." Entre elas e os seus "escravos" é estabelecida uma relação de poder  que pode não envolver a inflição de dor física; a dominação pode ser exercida verbalmente ou envolver apenas tarefas humilhantes ou que implicam servidão. "Uma vez encontrei-me com uma dominatrix na sua masmorra para conversar sobre o projecto e ela ordenou ao seu 'escravo' que lhe trouxesse uma coca-cola, o que me deixou confuso. Um pouco mais tarde, ela pediu ao 'escravo', que vestia apenas uma tanga, para juntar-se à nossa conversa; ele era um historiador de arte e acrescentou pontos de vista muito interessantes. Este tipo de situação mudou a forma como encaro esta questão, passou a haver muito pouca coisa que pudesse irritar-me depois disso. As pessoas estão no centro desta prática, não as máscaras ou os papéis." O preconceito que encerra este tipo de prática, em sociedade, dificulta a ligação empática com os seus protagonistas. Quem a exerce considera-a libertadora. "Este é o primeiro trabalho que tenho em que sinto que não me vendo", disse uma das entrevistadas do fotógrafo. "Antes tentava manter a minha identidade e funcionar em sociedade, mas ao fazê-lo sentia que me estava a vender. Eu não tenho de funcionar em sociedade. Sinto-me bem assim." A maioria das mulheres continua a trabalhar no anonimato, principalmente por medo de exclusão social e de intervenção legal. (Na Alemanha, apesar de a prostituição ser uma actividade legal e regulada, mas muitas destas mulheres optam por manter-se à margem.) "Estas mulheres vivem muito no presente, pensam pouco no futuro", explica o fotógrafo. "A maioria é solteira, mas algumas têm relacionamentos. Algumas parecem muito seguras, equilibradas, e outras parecem muito vulneráveis. Muitas operam honesta e autonomamente, e outras permanecem na indústria do sexo por falta de alternativa. Entre as mulheres que conheci, uma era estudante de medicina e queria viver as suas fantasias sexuais. Conheci também uma mulher idosa que trabalhava oficialmente como consultora, mas que uma vez por semana era dominatrix." A motivação para a prática da profissão varia de mulher para mulher. Sem generalizar, o fotolivro "Dominas" — que pode ser adquirido online — apresenta um exemplo: "Dantes queria ir para o exército para poder humilhar os homens, fazê-los marchar ao meu ritmo. Na minha opinião, os homens merecem isso - quero dizer, muitos merecem isso. De repente descobri a profissão de dominatrix e pensei para mim 'deste modo é muito mais rápido'." Max Eicke sentiu necessidade de abordar o tema da BDSM por encontrar pouca informação credível acerca do tema. "Uma vez li uma autobiografia de uma mulher jovem que trabalhava como dominatrix enquanto estudava Literatura. Este livro pareceu-me contraditório, o que me despertou a curiosidade por este mundo paralelo. Quando decidi pesquisar sobre o tema, encontrei apenas pseudo-documentários que tratavam o assunto como um 'freak show' e artigos sensacionalistas." Decidiu então abordar o tema de um ponto de vista sóbrio e produzir "Dominas", um projecto de fotografia documental que parte de uma perspectiva humanista. "Olhar para a nossa sociedade através dos olhos das trabalhadoras da BDSM e das comunidades fetichistas tornou-se interessante porque acredito que diz muito a respeito da forma como a nossa sociedade lida com a sexualidade. Esta afirmação de uma das dominatrix que entrevistei sumariza muito bem a questão: 'Ser forte implica ter a capacidade de assumir aquilo que se é e escolher dizer 'eu não sou um estereótipo'. Eu limito-me a ser eu e isso é algo que desejo a todas as pessoas.'" O trabalho do fotógrafo pode ser acompanhado através da sua conta de instagram.

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