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Manifestante na praça Maidan, Kiev Paulo Nunes dos Santos

Confrontos na praça Maidan, Kiev Paulo Nunes dos Santos

Retrato de Paulo Nunes dos Santos Ross McDonnell

Paulo Nunes dos Santos

Entrevista

Sintra Press Photo: Paulo Nunes dos Santos é o fotojornalista na frente de guerra

Colabora com "The New York Times", "Le Monde", "The Guardian", entre outros. "The Barricades: Kiev's Deadly Protests", a série que desenvolveu durante os protestos, na Ucrânia, em 2013 e 2014, está exposta no Sintra Press Photo

Texto de Ana Marques Maia • 13/10/2015 - 12:00

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Foi na primeira fila que o fotojornalista Paulo Nunes dos Santos assistiu à revolução de Maidan que, entre Novembro de 2013 e Fevereiro do ano seguinte, pôs a Ucrânia em polvorosa. Em entrevista, por e-mail, ao P3, o português conta como foi a sua experiência nesse cenário, a propósito da sua exposição no Museu das Artes de Sintra [MU.SA], no âmbito do Sintra Press Photo, evento que decorre de 10 de Outubro a 10 de Dezembro.

 

Como era a tua rotina em Kiev?

Quando viajei para Kiev pela primeira vez, em Novembro de 2013, confesso que sabia muito pouco sobre a Ucrânia. Tinha passado os últimos anos a trabalhar quase que exclusivamente no Médio Oriente e África e estava, profissionalmente, um pouco desligado da realidade europeia. 

 

Houve, naturalmente, algum nervosismo à chegada, especialmente por não saber se teria problemas no aeroporto. Havia rumores de que estavam a barrar entrada a jornalistas estrangeiros e de que material fotográfico e de vídeo era por vezes apreendido. Mas eu gosto desse nervosismo. Aprecio muito a incerteza e o desconforto de quando se viaja pela primeira vez para um sitio novo. Faz parte da aventura.

 

Consegui um apartamento a escassos metros de Maidan [Praça da Independência de Kiev] e isso permitiu-me trabalhar muito mais à vontade, uma vez que os confrontos com a polícia ocorriam mesmo ao virar da esquina e na maior parte das vezes durante a noite. Rapidamente estabeleci uma rotina de trabalho. Criei uma rede de contactos com jornalistas locais, activistas e manifestantes, que me iam pondo a par dos desenvolvimentos. 

 

Normalmente, acordava bem cedo e dava uma volta pela Praça [da Independência]. Fazia a visita obrigatória às barricadas que demarcavam as posições dos manifestantes e da polícia, o epicentro dos confrontos. Caso não houvesse muita acção, ia tratar de falar e entrevistar gente durante o dia. Durante a noite, as coisas funcionavam de modo diferente. Era nesta altura que normalmente ocorriam os confrontos e quando passava a maior parte do tempo junto às barricadas a fotografar a violência. Durante os meses de protestos, foram muitas as noites que passei ao relento.

 

Qual é a sensação de viver numa zona de instabilidade?

Cobrir os protestos em Maidan foi mais fácil do que eu inicialmente esperava. Estou habituado a trabalhar em cenários muito mais hostis do que aquilo que encontrei em Kiev.

 

O ambiente em Maidan era bastante seguro. As pessoas encarregues de controlar as barricadas faziam questão de não deixar gente armada ou embriagada entrar nas imediações da praça. Apesar das cargas policiais, conseguiram manter Maidan num local seguro onde famílias iam passear ao final do dia de trabalho e aos fim-de-semana. Obviamente que se tinha de ter muita atenção durante os confrontos, particularmente por causa dos objectos que eram frequentemente arremessados. No fatídico 20 de Fevereiro, o dia em que atiradores dispararam com munições reais sobre os manifestantes que tentavam romper o cordão policial em direcção ao Parlamento, resultando na morte de cerca de 70 pessoas, a situação ficou mais séria e o risco aumentou consideravelmente. Ai sim, a experiência de trabalhar em cenários de guerra ajudou bastante.

 

Confesso ter sido um choque ver gente a ser baleada à minha frente em Kiev. Durante a minha carreira já vi várias pessoas morrer e serem mortas à minha frente. Tive até em várias ocasiões já bem perto de ser eu a vítima. Mas ver isto a acontecer em Kiev foi algo de inesperado. Era evidente que a tensão estava cada vez mais alta, mas nunca me passou pela cabeça que chegasse ao ponto de haver atiradores furtivos ("snipers") no centro da cidade a executar gente daquela maneira.

 

O que mais te impressionou durante a cobertura destes protestos? 

O ambiente de comunidade e união foi o que mais me impressionou. Havia um sentimento de que o povo estava realmente unido por uma causa maior. A diversidade em Maidan era também algo de surpreendente. Havia gente de todas as classes sociais, ideologias políticas e religiosas, gente do campo e da cidade, novos e velhos. Estou convencido que esta diversidade terá contribuído em muito para a perseverança e o sucesso do protesto. Estavam, sem dúvida, muito bem organizados. Desde a distribuição de comida e roupa ao suporte médico e técnico e à segurança, os manifestantes conseguiram num período bastante curto organizar-se de forma impressionante.

 

Conheceste alguns dos manifestantes? Há alguma história que possas partilhar e que ilustre um pouco o sentimento de lá estar?

Durante a dezena de viagens que fiz nessa altura a Kiev, fui conhecendo gente de toda a parte do país. Fiquei amigo de alguns deles. Gente com quem ainda hoje mantenho contacto. Estas pessoas foram importantes para me ajudar a perceber mais profundamente a sociedade ucraniana e as frustrações em se vivia durante a governação de Viktor Yanukovich. Entre jantares e sessões de vodka, tive a oportunidade de ter conversas mais abertas sobre o que realmente é viver numa sociedade ainda muito marcada pelo estigma histórico dos tempos da União Soviética. 

 

A generosidade dos ucranianos foi também algo que me impressionou muito. Tenho na memória a noite em que, debaixo de um frio tremendo, dois jovens de Kharkiv se aproximaram para me oferecer metade de cada uma das duas únicas sandes que tinham numa pequena mochila. Sandes que a mãe lhes tinha preparado antes de se porem a caminho da capital para participar nos protestos. 

 

Qual foi o momento de viragem que ditou a tua internacionalização? 

Ao contrário do que ocorre normalmente, a minha “internacionalização” aconteceu antes da minha “nacionalização”. Saí de Portugal poucos meses depois de ter concluído o curso universitário. Na altura, a ideia era escrever, ser repórter. Mas o desejo de começar a dedicar mais tempo à fotografia era algo que estava a crescer. Hoje em dia, a maior parte do meu trabalho é fotojornalismo, mas faço questão de continuar sempre a escrever.

 

Após uma breve passagem como estagiário pelo "Diário Digital" e por um jornal regional em Trás-Os-Montes, enquanto repórter, resolvi ir viajar pela Europa para tentar a sorte como "freelancer". Nunca acreditei na ideia de que temos de ficar em casa à espera que nos venham bater à porta a oferecer oportunidades. Principalmente nesta profissão, que muitos dizem estar pela hora da morte. Felizmente, não acredito que esteja. Nunca antes houve tantas plataformas onde possamos publicar historias. Tantas e tão variadas que permitissem apresentar trabalhos de forma tão inovadora.

 

Mantenho uma relação muito próxima com o "Expresso", para quem escrevo com muita regularidade, e com o "Courrier Internacional", onde tenho publicado foto-reportagens e portfólios. A nível internacional, sou colaborador assíduo do "The New York Times". Nos últimos três anos tenho fotografado imenso para eles e isso de certa forma tem-me aberto portas noutras publicações de renome como o "Le Monde", "Sunday Times", "The Guardian", "BBC", "Al Jazeera", "Financial Times", entre outros. Quando frequentemente se tem o privilégio de ter uma fotografia tirada por nós na primeira página do mais respeitado jornal do planeta, há sempre um reconhecimento e oportunidades que se seguem.

Eu acho que

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