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Que violino em fibra de carbono é este? É português e já ganhou um prémio

O violino Ava Royale tem ADN português e conquistou o iF Design Award 2018, na categoria Produto/Lazer. O que o distingue? É feito em fibra de carbono

Texto de Ana Jorge Teixeira • 28/03/2018 - 18:31

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Está cuidadosamente (e estrategicamente) pousado na mesa do escritório, assim que o P3 chega. E não parece que vá sair de lá tão cedo. Falamos de Ava Royale, o violino desenvolvido em fibra de carbono pelo estúdio de design IdeiaM. É um projecto português mas quer espalhar-se pelo mundo. Mas há mais. Foi distinguido com um iF Design Award 2018 ao destacar-se na categoria Produto/Lazer. Mas, afinal, que instrumento é este?

 

O violino em fibra de carbono destacou-se entre as mais de seis mil candidaturas enviadas para o concurso na Alemanha. E por uma razão simples: o carbono é uma alternativa às madeiras nobres tipicamente usadas e que estão em vias de extinção. Quem o explica é Júlio Martins, director executivo da IdeiaM, em entrevista ao P3. O facto de ser um "corpo único" é outro dos elementos diferenciadores. Por outras palavras, em vez de se criarem várias peças de madeira separadas — "como tipicamente é feito" —, o violino tem um "corpo único".

 

Importa ainda acrescentar mais características à lista. O Ava Royale tem a "capacidade de se manter afinado durante mais tempo" e, além disso, a fibra de carbono permite uma maior resistência à humidade e às variações de temperatura. O objectivo é que o instrumento "seja o mais familiar [possível] para o músico". "Queremos que o som seja o som de um violino tradicional", diz Júlio. O que na realidade acontece. "Se formos a um teste cego, as pessoas não percebem se estamos a ouvir um violino de madeira ou um violino de carbono", garante. Ao palco improvisado sobe então o designer António Rocha e ensaia uns acordes. Teste superado: é verdade, como o P3 comprova. O som assemelha-se ao de qualquer outro violino.

 

Violinos, guitarras, bandolins

A ideia deste instrumento já tinha começado a ser desenvolvida muito antes do prémio internacional. Ainda em "ambiente académico", durante a licenciatura em Engenharia Mecânica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), Júlio Martins e João Petiz foram desafiados por um professor. "Começámos a explorar as vantagens e características de usar materiais alternativos (como a fibra de carbono) em instrumentos musicais", recordam os antigos colegas de curso e sócios da empresa. Foi assim que, mais tarde, decidiram criaram o estúdio de design IdeiaM e começaram a produzir os primeiros instrumentos. As guitarras expostas ali ao lado não deixam enganar. "Na parte dos instrumentos musicais temos o violino, a guitarra e o bandolim no mercado. O interesse é levarmos os instrumentos para o público."

 

Entretanto, continuam, surge "o desafio de um estagiário que se propôs a desenvolver um violino em fibra de carbono". A proposta foi de António Rocha, agora designer de 27 anos e também parte da equipa. Em conjunto, criaram assim Ava Royale, um nome simbólico: "Ava" ("canto", em persa), a palavra escolhida na altura para lançar a marca dos instrumentos, "Royale", um "pedido especial" do designer para baptizar o violino. Está disponível para venda através do site da marca e custa 2900 euros.

 

Todas as ideias nascem no estúdio de design IdeiaM no Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto (UPTEC). E não precisam de ir muito longe para ganharem vida, pois o escritório e a oficina ficam nas mesmas instalações. É nestas duas divisões que nascem ideias de todos os tipos. "Trabalhamos para clientes que nos desafiam para desenvolvermos novos produtos", conta Júlio. "Por isso é que numa sala como esta consegues ver bicicletas, motas, mobiliário para escritório, coisas completamente diferentes."

 

A reacção por parte dos músicos e do público tem sido positiva: "Hoje em dia, os músicos valorizam o facto de um violino ser de carbono". O que leva a equipa a acreditar que "o som é de um violino de qualidade". Mas nem sempre foi assim. "Quando começámos, há dez anos, as pessoas tinham uma certa estranheza." As palavras são de Júlio, mas o seu sócio corrobora. "Era um desafio muito grande", revela João. No entanto, acredita terem chegado a uma "solução muito elegante e competente" num objecto difícil de trabalhar "por estar cristalizado na mente das pessoas". O prémio surgiu como "validação do trabalho desenvolvido" e, para João, "foi uma alegria muito grande". O facto de terem sido reconhecidos por pessoas da área, "exigentes" e que valorizam o trabalho, transmite uma "confiança" de que estão "no caminho certo".

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