Rui Moreira/Facebook

Crónica

Algumas notas sobre o Morto.

Talvez este autocolante seja um alerta, uma visualização de descontentamento vivido, verbalizado por habitantes e visitantes do Porto. Talvez seja um grito contra uma turistificação desmesurada

Texto de Francisco Laranjo • 29/08/2017 - 17:42

Francisco Laranjo é designer gráfico, investigador e editor da revista Modes of
Francisco Laranjo é designer gráfico, investigador e editor da revista Modes of Criticism

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Nos últimos dias, apareceram autocolantes na cidade do Porto que imitam a identidade visual da Câmara Municipal, podendo ler-se “Morto.” em vez de “Porto.” O Presidente da Câmara, Rui Moreira, depressa condenou esta intervenção através do Facebook, acusando os autores anónimos de ódio à cidade. No entanto, este acto é precisamente uma demonstração de interesse e de vida na cidade, contrariamente ao que uma leitura inicial da mensagem pode induzir.

 

Há muito a elogiar e aplaudir no Porto — reabilitação, investimento, cultura — mas este autocolante alerta que há também pelo menos tanto a urgentemente criticar, debater e abordar como há a celebrar. Atacar este gesto visual através da defesa de uma identidade visual com prémios de design e publicidade tais como o Graphis e D&AD como se garantissem ou validassem qualidade e pertinência, é no mínimo, desapropriado.

 

Talvez este autocolante seja um alerta, uma visualização de descontentamento vivido, verbalizado e escrito por habitantes e visitantes do Porto. Talvez seja um grito contra uma turistificação desmesurada, onde em cada esquina há um Airbnb. Talvez seja um repúdio pelo fecho de mercearias antigas e a substituição por boutiques gourmet de branding genérico. Talvez seja alguma revolta por restaurantes típicos com mais de 40 anos fecharem, com os donos em lágrimas, por o novo senhorio que comprou o prédio de forma a dividi-lo em doze T0, ter pedido o quádruplo da renda no mês seguinte. Talvez seja um indicador de que nem tudo está bem para além dos sites minimalistas e contas de Instagram com hashtags #Porto, vídeos filmados com drones e startups a explodirem pela cidade. Talvez seja um aviso de que não é boa ideia deixar o mercado autorregular-se.

 

Talvez nenhuma destas possibilidades de interpretação tenham sido intenção do autor ou autores, até porque autocolantes e intervenções onde se pode ler “Torto.” são vistas na cidade há mais de um ou dois anos. Pode portanto ser simplesmente um exercício de discurso visual e verbal, ou até mera provocação.

 

Esta intervenção gráfica não parece ser uma crítica de design à marca do Porto. É, antes, uma rápida apropriação visual que, de forma vital, usa um elemento que é predominantemente utilizado para promoção e muitas vezes decoração repetitiva, e transforma-o em ferramenta de debate e escrutínio. Qualquer gesto gráfico é sempre político. Este pode não deixar claras as suas intenções, nem ser transparente ou óbvio. Não aparenta ataque pessoal, mas em plena campanha autárquica, força uma reacção e facilita a discussão entre cidadãos. O seu mérito reside na incerteza do autoquestionamento que proporciona, e é por esta razão que a cidade lhe deve estar agradecida.

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