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Ana Morais

Crónica

A Anita e a Lis Gonçalves

A artista passou a infância entre idas a lojas de tecidos, que a encantavam com cores e padrões, e brincadeiras com os botões que espalhava pelo atelier da mãe

Texto de Ana Morais • 09/12/2014 - 17:24

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Numa manhã solarenga datada de Abril de 2013 decidi explorar o Mercado da Ribeira. Para além de encontrar o que esperava de um ambiente de mercado, lembro-me de me ter surpreendido por encontrar também muita gente que continua a lutar pela cultura e pela criatividade em Portugal. A Lis foi uma delas. Atraíram-me as cores nas suas pinturas e depois de conversarmos um pouco e de descobrirmos algumas coisas em comum acabámos por trocar contactos. Para além da simpatia e simplicidade, adorei o que ela cria e o que ali, naquela pequena banquinha, ela me mostrava e explicava.

 

Lis Dália Correia Gonçalves, com 34 anos e duas flores de nome, filha de pais portugueses nasceu e viveu na África do Sul até aos nove anos. A palete de cores que usa nas suas peças advém muito da diversidade visual e cultural que de lá trouxe. “Ser filha de imigrantes também foi importante, vivia na África do Sul fascinada com a cultura portuguesa.” Apesar de os pais serem do Norte, quando voltaram a Portugal foram viver para o Algarve e só aos 19 anos é que a Lis se mudou para Lisboa.

 

Desde muito cedo que se lembra de desenhar a carvão, mas por incentivo dos pais seguiu humanidades, tendo feito a Específica de Desenho com 19 anos. Mais tarde frequenta a Escola Superior de Artes Decorativas da Fundação Ricardo Espírito Santo em Lisboa onde desenvolve técnicas de desenho, não tendo no entanto concluído o curso. Envereda então na Clássica no curso de Linguística. “Tive sorte, porque mal acabei o curso comecei a trabalhar na área da investigação científica, no Instituto de Linguística Teórica e Computacional, em particular, em projectos relacionados com a fonética acústica.” Após cinco anos de investigação, e devido a cortes por parte da FCT, os projectos e o financiamento acabaram e a Lis viu-se parte da percentagem de desempregados de um país em plena crise financeira. Apesar de tudo, como já pintava, viu este momento como uma oportunidade de fazer o que sempre quis: viver da sua arte.

 

Quando se mudou para a zona do Jardim da Estrela, em Lisboa, a inspiração para pintar voltou exponencialmente. Eu consigo perceber perfeitamente esta influência nela e nas suas peças — com padrões florais, e uma forte ligação à natureza e à simbologia da cultura portuguesa. Na série inspirada na tradição portuguesa desenvolve 13 temas diferentes, alguns escolhas óbvias, como as sardinhas, o coração de Viana ou as andorinhas, outras menos óbvias como o garrafão ou o corvo.

 

Quem conhece o Jardim da Estrela sabe a envolvência familiar com a natureza que este proporciona e quando passamos os portões grandes da entrada parece quase que estamos a entrar num mundo paralelo onde o tempo pára. É também o local perfeito, quando a metereologia o permite, para conhecer artes e artesões de várias areas no mercado “Crafts & Design” ao fim-de-semana.

 

Decidida em tornar este sonho realidade, Lis começou por expôr em alguns sítios, estratégia que se revelou infrutífera. Um dia, quando decidiu participar na Feira das Almas em finais de 2012, a esperança encontrou o caminho da realização. “Confesso que fiz qualquer coisa como 35€ e fiquei histérica. Tinha vendido trabalhos meus a pessoas que eu não conhecia de lado nenhum.”

 

Passou então a participar em várias feiras, foi convidada para exposições, e no final de 2013 surgiu a oportunidade de abrir uma loja com mais dois outros projectos no edifício Embaixada (complexo comercial com diversas marcas e criativos) no Príncipe Real, que se mantém com o devido sucesso. Para além desta tem os seus trabalhos em várias outras lojas em Lisboa, Sintra, Cascais e Algarve. Ainda assim, as feiras e mercados continuam a ser parte da sua rotina, porque, como a Lis afirma, “é como ir para uma festa, e é das coisas que mais gosto de fazer.”

 

O seu projecto mais acarinhado é, sem dúvida, este da pintura virada para o público, mais comercial e turístico; no entanto sentiu necessidade de começar a explorar novos materiais e de criar um produto diferente. Por isso, neste momento encontra-se em processo de criação e desenvolvimento de uma peça em gesso de resina, representativo dos seus padrões de forma mais minimalista que estará futuramente à venda como colar. As influências aqui, refere, foram os tectos trabalhados das casas tipicamente alfacinhas e a pedra calcária que aparece por todo o lado em Lisboa.

 

Quando pergunto à Lis a quem gostava de agradecer, a resposta é simples: a sua mãe, sem qualquer dúvida, pelo apoio e inspiração. Conta-me, numa descritição muito carinhosa, que, na consequência dela ter sido costureira (agora reformada), passou a infância entre idas a lojas de tecidos que a encantavam com cores e padrões, e brincadeiras com os botões que espalhava pelo atelier da mãe. “Todas aquelas cores e padrões foram sem dúvida inspiradores. Isso e o sentido estético que ela me transmitiu.” Quem sabe no próximo ano não teremos os padrões da Lis em tecidos?

 

Se forem a um mercado ou feira e virem a banca da Lis, não se esqueçam de lhe dizer olá, porque tenho a certeza que vos receberá da mesma maneira calorosa que ela me recebeu em 2013, naquela manhã solarenga no Mercado da Ribeira.

Eu acho que

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