Nelson Garrido

Arquitectura

O que fazer com edifícios que estão “à espera” de vida no Porto?

Vários arquitectos encheram de autocolantes a fachada de um edifício devoluto e desafiaram as pessoas a partilharem as suas esperanças para o espaço. O projecto, que se estreou na Rua dos Bragas a 2 de Março, vai passar por mais três locais do Porto

Texto de Beatriz Silva Pinto • 06/03/2018 - 22:54

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O dia não convida ao passeio — a chuva e o vento empurram as pessoas para debaixo dos tectos tão depressa quanto podem. Mas, na Rua dos Bragas, há vários arquitectos que, com a caneta numa mão e o guarda-chuva noutra, convidam a gente do Porto a parar para pensar na cidade e no que falta nela. “Eu queria que isto fosse...” é o que está escrito nas centenas de autocolantes que, na sexta-feira, 2 de Março, foram afixados na fachada da Companhia Aurifícia, um dos muitos edifícios devolutos da cidade.

 

A ideia não é nova. Em 2010, a artista Candy Chang usou a cidade de Nova Orleães como tela para o projecto participativo de arte pública “I wish this was. Milhares de autocolantes foram colocados em lotes devolutos para convidar os moradores a manifestarem as suas expectativas para os espaços. E o colectivo de arquitectos oitoo quis replicar a experiência na cidade portuense. O objectivo? Abrir o debate público acerca das necessidades da comunidade e relembrar o cidadão de “que é o actor principal da cidade”, revela Laura Lupini, uma das arquitectas do grupo.

 

São muitos os que fogem do pedido dos arquitectos. “Pararmos para pensar no interesse colectivo é uma coisa muito complicada, quando há tantas preocupações mais imediatas”, comenta André Bateira, outro membro do colectivo. Mas, mesmo debaixo de uma tempestade, há miúdos e graúdos, turistas e residentes, que aceitam o desafio. E aquela parede de azulejo torna-se numa extensa lista de desejos, escrita a mil mãos e em várias línguas. Mistura-se o italiano, o espanhol e o inglês com o português. Misturam-se pedidos tão distintos como hostels e habitações sociais. Pedidos que são também sinais dos tempos, como aquele que afirma “Eu queria que isto fosse... para os portuenses.”

 

Luís foi um dos que parou para escrever. Tem 20 anos e gostava que aquele espaço “albergasse instituições de solidariedade social”: “Queria que fosse um espaço que contribuísse para a reabilitação e reintegração de população sem-abrigo e carenciada, visto que esta é uma zona em que essa população existe em massa e está a ser afastada.” E não é o único a pedir o mesmo. Mas, antes de escrever a sua vontade, toma o seu tempo para pensar e olhar para o edifício, por dar “muito valor” e “levar a sério” iniciativas como esta: “Isto está a pedir às pessoas que reflictam sobre um espaço comum. E este sentimento de comunidade, o termos alguma coisa a dizer sobre o que vemos e não estarmos só aqui a passar... É bom.”

 

Horas antes, já Bárbara, de 19 anos, tinha deixado a sua opinião no mural da Rua dos Bragas, onde mora: “Eu acho que o que falta, e o que se vê logo, é habitação para os portuenses. Vêem-se muitos hostels e hotéis e pouca oportunidade para as pessoas do Porto viverem cá. E até residências para estudantes são algo que faz muito falta.”

 

Abrir as portas de “edifícios à espera”

Outro propósito desta acção de intervenção é provar que não é preciso gastar muito dinheiro para dar um novo uso a estes edifícios que estão “à espera”. Mesmo que não seja um uso permanente, explica Laura: “Quando há um edifício abandonado, o primeiro passo que se dá é construir e injectar muito dinheiro para lhe dar uma função permanente. Isso demora anos, prevê diversas autorizações. E há um espaço temporal em que esses edifícios ou lotes vazios estão sem função.”

 

Um jardim, um parque infantil, um cinema ao ar livre ou simplesmente um atalho ajardinado para a Rua Álvares Cabral. Estas são algumas das sugestões de Laura para o que poderia ser oferecido se se abrissem as portas nesta fase intermédia que a antiga Companhia Aurifícia vive. O imóvel do século XIX, cujas instalações vão, precisamente, da Rua dos Bragas à Álvares Cabral, foi colocado à venda pelos proprietários em 2013 — e é a esse ano que remontam as últimas notícias.

 

“Jardim” e “espaço verde” são, aliás, palavras que se repetem sem conta neste mural de expectativas. Também não falta quem peça por centros culturais, museus, cinemas e espaços de lazer. E, apesar de não estar nas mãos deles decidir o futuro do espaço, o colectivo acredita que as visões dos portuenses podem e devem ser ouvidas pelos proprietários.

 

Oito amigos do tempo da faculdade

Na sua maioria, o atelier oitoo é formado por amigos que se conheceram na universidade. Estudaram na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto e partiram depois em direcções diferentes, calcorreando cidades como Londres, Basileia, Milão, Mendrisio e Pequim. Foram à procura de oportunidades que não existiam em Portugal — um país de “realidade difícil” para os jovens recém-licenciados na área — e lá ficaram durante vários anos.

 

Isto até João Machado ter escrito uma carta aos colegas com a ideia para um novo projecto: um escritório de arquitectos com a função de observatório, dedicada à discussão e realização de acções em volta de lotes e edifícios subaproveitados ou esquecidos. O desejo de fazer algo para lá do papel clássico do arquitecto e a vontade de regressar a casa surtiu efeito. E, em Setembro, abriram portas.

 

Durante um ano e meio, a equipa mapeou os diversos espaços desocupados da cidade. Para o projecto, escolheram quatro: para lá da intervenção na Rua dos Bragas, a iniciativa ainda vai à Rua Álvaro Castelões (9 de Março), à Rua de Cedofeita (16 de Março) e à Rua da Constituição (23 de Março), sempre entre o meio-dia e as 18h.

 

E, mesmo depois de Março, estas pequenas caixas de opinião podem voltar a aparecer por aí, sem lá estarem os arquitectos de canetas na mão. Aplicar os autocolantes de uma só vez e deixar que as pessoas escrevam livremente é uma das ideias do colectivo, remata Laura: “A artista que nos inspirou colava os autocolantes em banda e deixava uma caneta pendurada na parede. E as pessoas que por lá iam passando reparavam que havia ali uma oportunidade, uma coisa devoluta que podia servir à cidade. Nós agora estamos nesta acção. Mas a ideia é que o debate continue para lá disto”.

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