Luís Ferreira Alves/Arquivo Agostinho Ricca
Edifício na década de 1980-1990

Crónica

Foco: mais que um prédio, um conjunto patrimonial moderno ameaçado

Porque a cidade é de todos, sentemo-nos à mesa e encontraremos decerto outras formas de a promover, valorizando o que já de melhor ela tem e pode ter

Texto de João Luís Marques • 18/01/2018 - 12:46

Arquitecto e investigador no CEAU. Colaborou na organização do arquivo de Agostinho Ricca — com muito gosto

Distribuir

Imprimir

//

A A

É possível que alguns dos leitores tenham já passado ao lado deste edifício portuense, muitas vezes até sem nunca nele deterem o olhar. Sobre o edifício de escritórios Santo António (1964-1969), no Parque Residencial da Boavista – Foco, deixou registado o arquitecto Agostinho Ricca (1915-2010): "Fachada austera e entrada abrigada".

 

O estudo do processo camarário revela-nos um pouco da sua história. Começou por ser pensado para habitação, mas a localização junto à vizinha fábrica de reconhecido valor patrimonial (entretanto demolida) tornava-o mais atraente para escritórios, funcionando assim como elemento de transição entre diferentes ocupações do espaço urbano. O olhar atento permitirá perceber, quase de imediato, o jogo de afinidades e diferenças com os vizinhos blocos de habitação S. João, S. Pedro e S. Paulo: a implantação perpendicular à avenida, os jogos de transparências e os jardins elevados no rés-do-chão, os remates dos pisos da cobertura, para não falar do mais óbvio e evidente, a "pele" dos edifícios.

 

Usando os mesmos revestimentos cerâmicos e caixilharias nas diferentes fachadas, Ricca confere ao conjunto grande unidade e coesão, mas sem que isso resulte num "aborrecido" exercício de repetição. De facto, a grande qualidade de todo o Parque Residencial da Boavista é a unidade conseguida na diferença respeitosa de cada um dos edifícios que o compõe, sejam eles os de habitação colectiva (blocos e torres) ou de equipamentos (igreja, hotel, clube residencial e escritórios), todos organizados em torno de um grande espaço verde. A amplitude deste programa confere ao conjunto um sentido de centro cívico à margem da Avenida da Boavista, aberto à cidade, onde galerias e parque formam o reino do peão — tudo “planeado como um todo grandioso, e executado em moldes daquilo que de melhor se faz na Europa”, conforme se lia na brochura comercial do empreendimento lançado pela Sociedade de Construções William Graham SARL em articulação com o Banco Português do Atlântico e desenvolvido em co-autoria com os arquitectos João Serôdio e Magalhães Carneiro.

 

Apesar do visível e inexplicável desinvestimento nalguns elementos do conjunto (Hotel e Cinema Estúdio Foco, hoje devolutos), a qualidade espacial da proposta de Ricca, fruto de um árduo exercício de desenho e projecto que entende o edifício muito para lá do seu valor enquanto "peça isolada", resiste. Curiosamente é este "todo" que faz do projecto uma obra singular, quer no panorama da cidade, quer no de um país que tantas vezes idealizou novos centros multifuncionais que nunca sairiam do papel. Mas aqui não só foi sonhado como permanece, fazendo ver que as propostas modernas não foram meras utopias de sonhadores de cidade.

 

A investigação disciplinar tem vindo a promover um reavivado olhar sobre a arquitectura portuguesa e obras que pareciam esquecidas têm vindo a ser recuperadas. Ao identificar na sua carta de património o Parque Residencial da Boavista, também a Câmara Municipal do Porto lhe reconheceu a excepcionalidade e, simultaneamente, a sua obrigação na protecção e promoção dessa marca identitária, assim se juntando a todos os que vêm unindo esforços no sentido da sua salvaguarda. É, pois, com espanto que vemos agora surgir propostas que não parecem reconhecer a mais-valia que é este legado patrimonial que o edifício de Santo António integra. A aprovação de projectos como o publicitado BOC - Boavista Office Center nas instâncias camarárias parece desacreditar o próprio trabalho realizado. Proteger hoje o edifício Santo António, ou futuro BOC, significa uma tomada da consciência comunitária do valor de todo o conjunto. Porque a cidade é de todos, sentemo-nos à mesa e encontraremos decerto outras formas de a promover, valorizando o que já de melhor ela tem e pode ter.

 

É preciso revitalizar? Sim! Com conhecimento, discernimento e ponderação! Santo António, rogai por nós! BOC.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que