Um mundo de falsificações arquitectónicas

autoria Ana Marques Maia

// data 29/11/2017 - 18:37

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São objectos de ilusionismo e, por vezes, ferramentas do embuste; são conjuntos de edifícios que não passam de invólucros vazios, cuja função é unicamente simular ou dissimular cidades reais. Não são cenários de filme, mas destinam-se sempre à produção de ficção; servem, invariavelmente, agendas políticas ou militares. São designadas vilas Potemkin e existem um pouco por todo o mundo, pelo menos desde 1737, momento em que foram baptizadas, na Rússia Imperial.

 

O fotógrafo Gregor Sailer debruçou-se sobre o tema durante dois anos e encontrou 25 exemplares deste tipo de formação urbanística espalhadas por sete países: Estados Unidos, China, Rússia, Suécia, Alemanha, França e Inglaterra. "A pesquisa e a organização das viagens e dos vistos levaram meses a preparar", disse ao P3 em entrevista. "Os locais mais difíceis de aceder foram os complexos militares, que estão interditos a pessoal externo ao exército." O fotolivro The Potemkin Village, editado pela Kehrer Verlag, contém 157 imagens descritivas dos locais fantasma que visitou. De todos, destaca a visita a uma zona militar no Norte de França, perto de Verdun — o principal campo de batalha da Primeira Guerra Mundial. "Ainda há munições de guerra adormecidas por todo o lado, o que torna o caminho muito perigoso. Os agricultores locais ainda encontram, hoje em dia, muitos esqueletos de soldados quando remexem a superfície do solo. Isso, em combinação com a possibilidade de explosões e com a tímida luz de Inverno, tornou a visita numa experiência um pouco assustadora." Já em pleno deserto do Mojave, nos Estados Unidos, brotaram da terra várias vilas Potemkin que servem de campo de treino aos soldados do exército norte-americano. "Estão plantadas no vasto e fascinante areal do deserto. Achei impressionante o esforço e investimento aplicados na construção dessas grandes cidades fantasma. Mesmo sabendo que eram falsas, as cidades e vilas pareciam-me muito reais. O ruído dos treinos — disparos, explosões, movimentações de tanques e de aviões de guerra — e a arquitectura, tão particular, tornaram a minha deambulação algo estranha e solitária."

 

O austríaco sempre sentiu interesse pelos conceitos de adereço, cópia, falsificação, cenário, "pela fina linha que separa a ilusão da realidade". "É fascinante e assustador verificar quanto esforço e energia são investidos na criação destas ilusões. Não me refiro apenas às vilas Potemkin, na sua acepção clássica, mas a todos os tipos de objecto que cumprem a mesma função. Creio que traduzem um tipo de desenvolvimento absurdo alcançado pela nossa sociedade."

 

O termo vila Potemkin surgiu na Rússia Imperial, durante a excursão da czarina Catarina II à então recém-anexada Crimeia, em 1737. Reza a lenda que Grigory Potemkin — líder militar do império e um dos favoritos da czarina — ordenou a construção de várias aldeias falsas ao longo do percurso, para que a monarca as vislumbrasse e considerasse um sucesso a missão que lhe havia atribuído e que consistia em urbanizar a região. A lenda carece de confirmação histórica, mas o termo vila Potemkin permanece até hoje.

Eu acho que