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Prémio

Joana, a arquitecta que sonha com os projectos de reabilitação

No atelier que fundou no Porto, Joana Leandro Vasconcelos tem-se dedicado a projectos de reabilitação, sobretudo de habitação. A par dos arquitectos Álvaro Siza e José Gigante, venceu o Prémio João de Almada com a sua própria casa

Texto de Ana Maria Henriques • 10/08/2017 - 17:32

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Foi um processo com “dúvidas existenciais”: a arquitecta fazia questão de manter alguns pormenores no projecto, faltava o lado do dono da obra para criar “um contraponto”. A razão? O facto de a arquitecta e a dona da casa serem a mesma pessoa. Joana Leandro Vasconcelos e o marido compraram uma casa na zona da Boavista, no Porto, e o projecto de reabilitação do edifício ficou a cargo da arquitecta de 38 anos, do atelier in.Vitro. “Quando [o projecto] é para nós, não sei o que é o ideal”, confessa. A Casa da Boavista, onde habitam há já dois anos, venceu o Prémio João de Almada na categoria de reabilitação de espaço habitacional.

 

Atribuído bienalmente pela Câmara Municipal do Porto, o Prémio João de Almada distingue as melhores intervenções de reabilitação de edifícios da cidade e em 2017, pela primeira vez, estabeleceu a distinção entre espaços habitacionais e não habitacionais. Além da Casa da Boavista, a lista de vencedores inclui os projectos do Palácio do Bolhão, de José Gigante, e de expansão da Universidade Católica, por Álvaro Siza. Estes últimos foram distinguidos ex-aequo na categoria de edifícios não residenciais, com direito a um prémio de 3500 euros cada. Os 10.000 euros relativos ao prémio da Casa da Boavista serão divididos entre o atelier in.Vitro e os proprietários do imóvel, ou seja, Joana e o marido, Tiago Ilharco, engenheiro de formação e sócio da empresa NCREP, de consultoria em reabilitação do edificado e património. Compraram a casa, datada de 1915, em 2014, depois de uma procura que levou vários anos. “Estava em óptimo estado de conservação, um dos nossos pré-requisitos: queríamos manter as características de uma casa daquele género e o orçamento que tínhamos para a obra era muito reduzido”, recorda a arquitecta. O custo da intervenção rondou os 300 euros por metro quadrado.

 

Centenária, a casa tem os traços típicos da habitação burguesa do Porto de finais do século XIX e inícios do século XX: “um lote estreito, comprido, com duas frentes, logradouro nas traseiras, muito vertical”, com quatro andares. Durante o processo de reabilitação, a casa perdeu as persianas, colocadas na década de 1940, e ganhou outros elementos originais, como réplicas dos azulejos verdes da fachada. Tectos, soalhos, revestimentos de paredes, cerâmicas, caixilharias, carpintarias interiores e janelas foram mantidos. “Como em qualquer outro projecto, tivemos de pensar se se adaptava ao programa que pretendíamos. Tentámos não alterar muito o seu funcionamento, porque estas casas foram bem construídas”, continua. “Se começamos a tirar muita coisa, passa a ser só uma casca.”

 

A trabalhar há dez anos por conta própria, depois de uma passagem pela empresa municipal Gaiurb e pelo gabinete do arquitecto Manuel Correia Fernandes, Joana não crê que tenha “uma linguagem própria”. “Não é um objectivo nosso, deixar uma marca”, admite. “Tenho muito cuidado com o desenho, mas quero que haja uma razão de ser, que não seja só um risco”, diz. “A função é importante, mas também as sensações que se criam num espaço.” Esta “nova geração de arquitectos” portugueses, reflecte, “começou a diversificar, precisamente devido à crise”. “Percebe-se que estão a experimentar, a testar materiais e novas formas de construir, técnicas; mas, se calhar, isso acontece com todas as gerações, no início.” A arquitectura portuguesa (e do Porto) é, está convicta, “muito bem vista lá fora”. “Temos dois Pritzkers e não há muitos países que se possam gabar disso. Sempre produzimos boa arquitectura.”

 

No atelier que fundou quando voltou de Madrid — onde fez um mestrado em habitação colectiva — grande parte do trabalho é de reabilitação. Não foi um caminho procurado por Joana ou pelas duas jovens arquitectas que a acompanham no in.Vitro (Mafalda Cabeleira e Maria Baena). “Creio que há mais pessoas a comprar e querer reabilitar”, diz Joana, e um breve passeio pelas ruas da Baixa do Porto, casa do atelier, parece comprovar esta tendência. “É um trabalho de que gosto muito porque exige muita pormenorização, atenção às pré-existências, ao contexto paisagístico, aos edifícios vizinhos, ao terreno. Há sempre condicionantes.”

 

Foi esse o caso dos três apartamentos do Palácio do Comércio que, de 2013 a 2016, foram recuperados com projectos assinados pela portuense. Neste edifício modernista, um dos mais característicos e emblemáticos da Rua Sá da Bandeira, no Porto, a ideia foi “preservar o elevado valor patrimonial” e garantir “uma melhora das condições de utilização e de conforto”, como o P3 escreveu em Fevereiro último. Mas a carteira de reabilitações com o carimbo in.Vitro não se fica por aqui e inclui, também, a Casa do Pinheiro Manso, menção honrosa no Prémio IHRU 2016, agora designado Prémio Nuno Teotónio Pereira. Em 2015, Joana Vasconcelos e Tiago Ilharco foram notícia por terem vencido um concurso internacional para reabilitarem duas aldeias históricas butanesas.

 

Por estes dias, o atelier de arquitectura tem vários projectos em cima da mesa, em fases diferentes: além de obras de reabilitação para habitação no Porto e de ampliação na Lousã, estão a trabalhar na reabilitação dos Paços do Concelho de Palmela e do Supremo Tribunal de Justiça, em Lisboa. Por construir já ficaram algumas encomendas, de entre elas o Design Hotel da Serra do Pilar, projectado para Vila Nova de Gaia. “Agarro-me sempre muito aos projectos, sonho com aquilo, imagino que aconteça a todos os arquitectos”, brinca. “Quando não vão para a frente, sinto pena.”

 

Artigo actualizado às 21h31 de 10 de Agosto de 2017.

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