Nelson Garrido

Projecto

Edifício Padaria: um centro de empresas no Porto, um caso de estudo na reabilitação urbana

Com 11 salas, o Edifício Padaria não é apenas um novo centro de empresas em pleno Centro Histórico do Porto. Projecto da arquitecta Diana Barros e do engenheiro Ricardo Santos quer ser uma referência a nível da sustentabilidade e eficiência energética

Texto de Amanda Ribeiro • 24/07/2017 - 18:03

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Durante anos e anos, saíam pãezinhos fresquinhos do n.º 46 da Rua de São Bento da Vitória, no Porto. Agora serão ideias, projectos, negócios. Inaugurado em meados do mês de Julho, o Edifício Padaria é um novo centro de empresas em plena zona histórica, mas é, na verdade, muito mais do que isso. É um “palco de experiências”, uma “máquina”, um projecto de arquitectura e engenharia que pretende ser uma referência a nível da sustentabilidade — por alguma razão venceu este ano o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana (PNRU) na categoria de Melhor Solução de Eficiência Energética.

 

“Quisemos provar”, explica a arquitecta Diana Barros, “se calhar a nós mesmos, que era possível fazer este tipo de obra no Centro Histórico da cidade e numa reabilitação.” E que obra é esta? Primeiro, é uma renovação de um imóvel que não tem em vista o alojamento local, o que já começa a ser raro nos dias que correm. Depois, é um projecto que se centra na eficiência energética e sustentabilidade. Aqui foram aplicados materiais naturais e repescadas técnicas tradicionais. Aqui combateu-se o desperdício, reutilizando-se elementos. Aqui reaproveitam-se hoje águas pluviais e há um sistema que aquece e arrefece naturalmente toda a estrutura.

 

Em 2012, quando a MCMF Imobiliária adquiriu o edifício, mandado construir em 1850 e ampliado em 1929 por causa do forno da tal padaria, o plano era, como costuma ser, reabilitá-lo para construir “apartamentos para arrendar a habitantes”, afirma a arquitecta de 33 anos. Porém, quando a proprietária visitou o local, ficou deslumbrada com a vista sobre o casario e com a próprio tipologia do imóvel de três pisos, situado entre os números 42 a 46 da rua. “Se calhar”, reflecte Diana, que trabalha para a empresa, “a sustentabilidade do projecto até começou aí sem nos apercebermos”. Porque, sublinha, “a sustentabilidade é mesmo isso, não destruir, não descaracterizar”.

 

Para preservar ao máximo o interior, surgiu então a ideia de fazer um centro de empresas que, curiosamente, também conservou o nome da função anterior. E, depois de dois anos de obras no valor de cerca de 400 mil euros, o Edifício Padaria abriu agora as suas portas. São mais de 650 metros quadrados de área bruta de construção que incluem 11 salas de escritório, um espaço comum para reuniões, uma copa, um jardim e um terraço com um fotogénico deck, que oferece uma vista desafogada até ao Douro. Nove salas já estão ocupadas ou reservadas por diferentes negócios, de empresas de organização de eventos à própria MCMF, mas ainda há duas livres, com 65 e 70 metros quadrados cada (já agora, o preço é fixo, 12 euros por metro quadrado, com internet e electricidade). Objectivo: criar uma certa ideia de “comunidade”, de “trabalhar um bocadinho de porta aberta”. Interessados? Têm de mandar um email.

 

Um caso de estudo no Centro Histórico

Ao percorrer os vários pisos percebe-se que este não é um edifício habitual (vê a galeria de fotos). No rés-do-chão há diferentes texturas para tactear por todo o lado. O tijolo térmico de tons pastel e linhas verticais combina com as paredes de madeira (reaproveitada) de tabique e as portas (recuperadas). Há fibras de madeira no tecto, o chão é composto por uma mistura de cal com argila. Na caixa de escadas vemos (orgulhosos) tijolos de burro à mostra e percebemos que os corrimões e os degraus, com rugas e marcas, têm histórias por contar. “Só colocamos peças novas quando tinha mesmo de ser”, diz, a dada altura da visita guiada, o engenheiro civil Ricardo Santos da Rielza, a sua construtora, responsável pela obra e inquilina do Padaria. No entanto, nem precisava de o mencionar: já o tínhamos percebido quando soubemos que para manter as escadas originais foram feitos enxertos de madeira e que as grades que as vão circundando são provenientes de um elevador de um outro prédio.

 

Tudo começou, precisamente, pelo voto de só utilizar materiais naturais e reaproveitados, aplicando técnicas ou adaptando princípios de métodos tradicionais. “As pessoas geralmente não escolhem materiais naturais porque pensam que são mais caros”, considera Diana. Eles quiseram provar que era possível. E que não se gastaria mais com isso — o custo de construção por metro quadrado ficou por 621 euros. Para isso, utilizaram, por exemplo, fibras de madeira no isolamento, mas também cortiça. E aí tiveram de ser criativos: “A cortiça era um elemento extremamente caro para nós porque tínhamos alguma área [para aplicar]. A solução que encontrámos foi usar a cortiça que é rejeitada, proveniente do primeiro corte, que não tem valor comercial nenhum.” O tecto do último piso foi isolado com 15 cm desse material, previamente triturado numa máquina, o que ficou três vezes mais barato do que a primeira alternativa. E funciona? “Funciona”, garante Ricardo. No pavimento térreo, por sua vez, seguiu-se a ideia dos pavimentos tradicionais, em que o soalho está levantado do pavimento térreo para o ar circular, mas fez-se uma adaptação. No processo, foram usados 355 pneus reciclados, que garantem permeabilidade ao vapor de água e ventilação, prevenindo o problema da humidade ascendente tão comum no Porto. E foi colocado reboco demolido do próprio edifício — é que para diminuir os gastos com a matéria prima e reduzir o desperdício também foram reutilizados materiais.

 

Desta primeira premissa partiram para um novo desafio: assumir o imóvel como um caso de estudo. “E não fazia sentido analisar um edifício que só tinha material natural, tinha de ter mais coisas para estudar”, enfatiza Ricardo. Depois de “esbarrarem em muita legislação”, conseguiram aproveitar a água da chuva para os sanitários, para sistemas de rega e para o arrefecimento evaporativo do terraço. E decidiram desenhar um sistema de aquecimento e arrefecimento natural, centrado na clarabóia virada a sul e numa parede de trompe. O funcionamento, exemplifica o engenheiro, é semelhante ao de um carro que, quando fechado ao sol, aquece de sobremaneira. Aqui também: em Novembro, nas últimas medições, quando no exterior estavam 4ºC, ali contavam-se uns 30ºC. Esse calor vai circular e aquecer todo o prédio, mas, se não for suficiente, também há radiadores ligados a uma caldeira a pellets, alimentada a serrim (“que eventualmente até pode não ser necessária”, destaca Diana).

 

Este sistema possibilita, por outro lado, arrefecer o interior, através da recirculação de ar — um conjunto de alavancas dita as ordens, seja para abrir a clarabóia, que funciona como uma chaminé, ou activar a ventilação. É essencial, afiança o duo, “sentir” a temperatura. E agir em consonância, realça Ricardo, de vara na mão, pronto a esfriar imediata e rapidamente o ambiente: “Todo o edifício é um mecanismo, trabalha em conjunto, como um todo. Tudo o que se fizer vai influenciar o interior.” Certo é que passado pouco tempo deste acto já uma brisa fresca arrepiava os mais sensíveis. 

 

Vencer o PNRU foi o “reconhecimento” de um “edifício único”, nas palavras de Ricardo. “O que aplicamos aqui não quer dizer que seja a solução mais perfeita, mas é aquela que nos permite agora avançar para uma solução ainda mais perfeita.” Para eles e para outros — estão a pedir agora a profissionais da área e ao meio académico que os ajudem a monitorizar o espaço, que obteve uma classificação energética A. Encaram agora dois desafios: conseguir fazer uma manutenção eficiente do prédio, agora ocupado por outras pessoas, desconhecedoras da matéria; e perceber a sua autonomia a nível de aquecimento e arrefecimento. O grande propósito, porém, está ganho, conclui o engenheiro: “Desmistificar a consciência que existe dos materiais naturais, do reaproveitamento e da sustentabilidade. E entendermos que é possível ter eficiência energética na área da reabilitação”. E na zona histórica da cidade, em pleno Património Mundial da Unesco, com todas as condicionantes que uma intervenção na área acarreta, acrescenta Diana. “Tens é de ser criativo.”

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