Berlim esconde uma distopia urbanística "bauhausiana"

autoria Ana Marques Maia

// data 31/05/2017 - 16:20

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"'Gopiusstadt' é uma zona residencial formada por edifícios muito altos, com capacidade para 45 mil pessoas, situados entre descampados de erva e centros comerciais. De longe, o conjunto dá a impressão de ser todo novo e muito bem tratado, mas, quando a gente entrava no meio dos edifícios, cheirava a urina e a excrementos, porque havia muitos cães e muitas crianças. Onde cheirava pior era nos vãos das escadas." Era assim nos anos anos 70, em Berlim, especificamente no complexo "Gopiusstadt", desenhado por Walter Gropius, arquitecto alemão e fundador do movimento Bauhaus, e erigido em 1960. Christiane F., autora do livro auto-biográfico "Os Filhos da Droga", lançado em 1978, foi residente no complexo berlinense e relata uma realidade dura, insalubre, fortemente marcada pela venda e consumo de drogas, pobreza e exclusão social. Actualmente é um dos exemplos urbanísticos mais debatidos na Alemanha — e um pouco por todo o mundo. "'Gropiusstadt' é olhado e entendido, cada vez mais, como 'uma pilha de lixo social'", explica o fotógrafo alemão Daniel Seiffert na descrição do projecto. Neukölln, o distrito onde se situa o complexo habitacional, é um dos que apresenta a maior percentagem, per capita, de pessoas com necessidade de apoio social. "'Gopiusstadt' encontra-se numa área particularmente sensível, do ponto de vista social, devido à elevada concentração de população imigrante, de idosos e de pessoas desempregadas", explica Seiffert. "Noventa por cento dos apartamentos [do complexo] foram alugados com apoio da segurança social." Actualmente, a gestão da Habitação na capital alemã é um dos seus principais desafios. "Faltam, por toda a cidade, casas [para arrendamento] a preços suportáveis. A crise na habitação é um dos temas mais críticos e debatidos na capital alemã. Especialmente no contexto de um grande fenómeno de gentrificação que força a maioria das pessoas com baixos rendimentos, como estudantes ou jovens família, a mudarem-se do centro da cidade em direcção à periferia. Algumas pessoas, optimistas, pensam que algo como um renascimento das cidades periféricas irá ocorrer e que poderão conhecer um futuro risonho - tal como aqueles que inicialmente ocuparam o complexo desenhado por Walter Gropius." O trabalho de Seiffert, em exposição no Festival de Fotografia Fujifilm FIF Viseu, pretende colocar questões sobre a percepção exterior e a realidade interior das cidades-satélite. "Trabanten" - "Satélite", em português - pretende ser um "documentário poético". "Existe beleza? Como pode ser descoberta? O que torna um lugar vivo e agradável - apesar da sua má reputação? O que encontrei foram traços de beleza e humanidade escondidos por detrás do que é percepcionado como uma 'pilha de lixo social'."

 

Trabanten, de Daniel Seiffert, está em exposição no Fujifilm Festival de Fotografia de Viseu até 4 de Junho. A série fotográfica foi criada ao abrigo do projecto Piles of Trash, que tem como objectivo colocar em evidência as assimetrias socio-económicas observáveis em contexto europeu.

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