Habitat Saudável

A arquitecta e o geógrafo criam casas que fazem bem à saúde

Marcelina Guimarães e Miguel Fernandes olham para as casas como seres vivos, estudam-nas e tentam perceber como podem afectar a vida e a saúde de quem nelas mora

Texto de Ana Maria Henriques • 28/01/2015 - 18:01

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Ela é arquitecta, ele é geógrafo. Uniram conhecimentos e experiências, foram estudar lá fora e implementaram, a partir do Porto, uma noção pouco conhecida em Portugal. Na Habitat Saudável praticam arquitectura integrativa, que une a concepção de casas aos conceitos de geobiologia, geometria sagrada e "feng shui" tradicional. “O que nós fazemos é levar às pessoas — através do seu espaço e da sua casa — saúde, felicidade e bem estar”, começa por definir Miguel Fernandes, de 35 anos.

 

“Não há aqui qualquer tipo de esoterismo”, ressalva o geógrafo em entrevista ao P3. “Segundo a Organização Mundial de Saúde, 30% das habitações têm potencial para causar doenças”, aponta; a percentagem sobe para 60 quando se tratam de construções empresariais. Quem os procura tem, normalmente, problemas de saúde: filhos doentes, insónias, níveis elevados de cansaço constante. “Vai desde sintomatologia muito 'soft' até doenças muito graves”, explica Miguel.

 

Campos eléctricos e electromagnéticos, radioactividade do espaço, conforto térmico, qualidade do ar, electricidade estática e valores do PH na água são alguns dos factores ambientais sobre os quais Miguel e Marcelina se debruçam. “Por norma, todas as casas têm uma solução: pode não ser a mais adequada em termos estéticos, como a cama não ficar no sítio mais ideal em termos de enquadramento”, refere Marcelina, 32 anos. Por vezes uma simples mudança de posição da cama pode fazer uma diferença significativa. “As radiações terrestres, por si só, não são prejudiciais, Mas, em determinado tipo de circunstâncias, podem ser nefastas para a saúde humana.”

 

Juntos desenvolveram um questionário padrão para fazerem a quem procura a Habitat Saudável, criada em Março de 2014 e já a trabalhar para todo o país. Querem saber como é que as pessoas se sentem no próprio espaço: se dormem bem ou acordam muitas vezes, se têm aparelhos electrónicos no quarto, se há plantas em casa (e se sim, se morrem com facilidade) ou qual o material de que é feita a cama e o próprio colchão.

 

Depois, visitam o espaço e fazem um estudo geobiológico e de "feng shui", separadamente ou em conjunto, com recurso a aparelhos modernos e técnicas ancestrais. A geobiologia, fundada pelo médico alemão Ernst Hartmann, dá-lhes as bases para estudarem a influência das radiações sobre os seres vivos, fazendo a ponte “entre os conhecimentos mais ancestrais e as novas investigações científicas”, continua Miguel.

 

As divisões de longa permanência — quarto e sala — são as mais problemáticas. “Há pessoas que podem viver durante anos num espaço doente e ter alguns sintomas leves aos quais não dão importância”, sugere Marcelina. “Fazemos um despiste e a primeira coisa é a desligar tudo o que são fontes potenciais de campos electromagnéticos dentro de casa (…) Muitas vezes, o problema nem está em nossa casa, mas sim nos vizinhos”, descreve.

 

Quartos livres de aparelhos electrónicos

Para Miguel e Marcelina, há algumas regras básicas a ter em conta — e não ter aparelhos no quarto é a primeira. Isto passa por tentar evitar “maus vícios”, como Marcelina lhes chama: telemóvel a carregar perto da cabeceira da cama e a servir de despertador, telefones sem fios com bases eléctricas, caixas de gravação de televisão, rádios despertadores “gigantescos que emitem fortes campos eléctricos de baixa frequência”, “routers”. “Quando pegamos nos aparelhos e começamos a medir as radiações, as pessoas ficam chocadas”, revela a jovem.

 

O problema passa pela forma como os projectos eléctricos estão desenhados nas nossas casas, uma vez que há instalação eléctrica por trás da cabeceira da cama em muitos dos casos. As tomadas podem ser muito úteis para ligar candeeiros, relógios e carregadores de "gadgets", mas o mais aconselhável é “afastar ou mudar a cama” dessa zona. Os materiais utilizados na construção são, também, relevantes: quanto mais naturais melhores, defendem. A estrutura da cama não deve ser metalizada e o colchão não deve ter molas nem espumas químicas.

 

É por estas razões que o casal gostava de ver estes princípios aplicados numa fase embrionária da construção das habitações, por defeito. Além da consultoria a particulares também dão apoio a profissionais (arquitectos, engenheiros, empresas de construção civil) e fazem projectos de raiz. “Quando a casa é assim construída de raiz é mais fácil. Já sabemos, à partida, quais as melhores zonas para quartos e para cozinhas ou espaços de circulação”, exemplifica Marcelina.

 

“Não somos fanáticos”, sublinha, “é perfeitamente possível construir casas contemporâneas e sabermo-nos proteger”. Miguel remata: “Não queremos que as pessoas retornem à idade da pedra, longe disso”.

 

Artigo actualizado às 11h04 de 29 de Janeiro de 2015

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