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Catarina Sanches

Catarina Sanches acredita em gnomos. É escritora nos tempos livres e fotógrafa compulsiva

Excerto

"Que se deixem as personagens que usam varinhas de condão para as utopias, que se retire a declaração de óbito ao amor, se faz favor!"

Catarina Sanches

Crónica

Até que a utopia nos separe

Essa coisa de amar alguém tem um botão de “on” e “off” e andámos todos a desligá-lo da corrente nos últimos anos? É isso?

Texto de Catarina Sanches • 19/11/2013 - 12:19

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Ouve-se por aí: “Amor? Já não acredito em nada disso.”.

 

Mas… como assim? Quer dizer que deixaste de acreditar que tens a capacidade de gostar de pessoas e de partilhar coisas bonitas com elas? Então mas… controla-se, isso?

 

Essa coisa de amar alguém tem um botão de “on” e “off” e andámos todos a desligá-lo da corrente nos últimos anos? É isso? Eu acho que o problema é que antes se embalavam as crianças ao sabor de histórias onde os protagonistas usavam coroas e rasgavam os céus montados em cavalos brancos. Agora, como já pouco se brinca com esse imaginário, e são também raras as histórias que ainda terminam com o triunfal “felizes para sempre”, parece que se declarou a morte ao amor. Pois bem, ele existe, está de boa saúde, come legumes e verduras e pratica desporto três vezes por semana. É um amor da vida real.

 

As utopias são isso mesmo, utopias. Só existem em paralelo com outra realidade, caso contrário não existem. Ou seja, o amor não anda montado em cavalos. E as pessoas não usam coroas ou vestidos de seda e tule bordado para ir trabalhar no dia-a-dia. O “felizes para sempre”, sabes quando é que ele aparece num livro ou num filme? No fim. Alguém teve de escrever tudo o que está para trás. Há uma história repleta de peripécias e também com algumas bruxas — sim, das que têm verrugas — e um ou dois dragões que cospem fogo pelo meio.

 

É uma história que se vive a um compasso duplo, lado a lado, a dois. São as músicas que se ouvem e cujas letras ambos conhecem de trás para a frente, os planos para amanhã que se tornam em programas de hoje e que se prolongam noite dentro. Os lábios a saber a mar que se enlaçam no Verão, o chapéu-de-chuva que se partiu mas que não é por isso que deixa de servir para abrigar os dois e os pequenos-almoços com direito a torradas queimadas porque se deixaram ficar na cama mais um bocadinho naquele domingo.

 

Mas isto dá trabalho. Escrever um livro inteiro, entrelaçar tantos episódios, tantos capítulos, pontuar sem tirar o sentido das frases, evitar o uso excessivo de reticências, transformar pontos finais em pontos e vírgulas…! Uff! É obra. Talvez seja por isso que a grande maioria de nós acaba por criar blogues ou escrever rubricas para jornais de quando a quando. Dá menos trabalho, não requer tanta imaginação, tanto tempo disponível.

 

Mas o amor não se presta a essas coisas da disponibilidade. O amor é prosa, é narrativa, é poesia. São as histórias que escrevemos a dois, e dão mesmo trabalho, e levam-nos mesmo muito tempo. Por isso, se quiseres chegar ao final da tua história e pontuá-la com um majestoso “vivemos felizes para sempre, SIM”, tens muito que escrever.

 

Que se deixem as personagens que usam varinhas de condão para as utopias, que se retire a declaração de óbito ao amor, se faz favor!

Eu acho que
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