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Tiago Leal tem 30 anos mas apenas um blogue

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O excerto

Tenho a convicção de que Arménio Carlos não é racista, até porque os seus actos valem mais (felizmente) que as suas palavras. Quis ser engraçado, quis ter piada, mas acabou por ultrapassar o limite do bom senso. Numa roda de amigos, não haveria, provavelmente, qualquer problema. Porque os amigos se conhecem e sabem até podem ir na relação entre todos.

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Ilustração/Tiago Leal

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Crónica

Arménio Carlos, o branquinho

Chamar “escurinho” a Abebe Selassie só para o identificar, conforme justificou Arménio Carlos, é, no mínimo, deselegante

Texto de Tiago Leal • 29/01/2013 - 20:42

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Arménio Carlos, dirigente da CGTP, num discurso feito numa manifestação que reuniu quarenta mil professores, referiu que “… em Fevereiro regressam os três reis magos, dois brancos e um escurinho, que são os representantes do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional…”, sendo que, para quem não tinha percebido, o “escurinho” é o etíope Abebe Selassie. Escusado será dizer que choveram comentários e opiniões por toda a parte, em especial nas redes sociais, acusando Arménio Carlos de ser racista e exigindo-lhe um pedido de desculpas em público, bem como uma ou duas auto-chicotadas nas costas. Bem, talvez tenham sido três ou quatro.

 

Quanto a mim, este é um daqueles casos em que a pessoa é altamente traída pelos acontecimentos. Se, em Fevereiro, viesse a Troika a Portugal, acompanhada da chanceler alemã, Angela Merkel, e do chefe do governo italiano, Mario Monti, o sr. Arménio teria dito:

 

““… em Fevereiro regressam os três reis magos, dois brancos e um escurinho, que são os representantes do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional, e uma gordinha e um velhadas, que são os representantes da Alemanha e da Itália…”, e toda a gente perceberia a realidade – Arménio Carlos não é racista. É mas é idiota e não deve ter a noção do que é falar em público na era das redes sociais.

 

Chamar “escurinho” a Abebe Selassie só para o identificar, conforme justificou Arménio Carlos, é, no mínimo, deselegante. O termo utilizado contém alguma malícia no diminutivo e não é totalmente objectivo, como ele o fez crer. Se tivesse dito “dois branquinhos e um escurinho”, a coisa talvez passasse. Lá está, seria idiota à mesma. Mas pelo menos, seria só idiota. Assim, para quem lê apenas o excerto referido, parece que deixa antever alguma sobranceria, derivada da cor, do orador relativamente ao visado.

 

É um facto que os discursos políticos exprimem sempre alguma superioridade da parte de quem discursa sobre os visados, mas essa superioridade deve ser ideológica, política, social mas neste caso, ela parece racial. Tenho a convicção de que Arménio Carlos não é racista, até porque os seus actos valem mais (felizmente) que as suas palavras. Quis ser engraçado, quis ter piada, mas acabou por ultrapassar o limite do bom senso. Numa roda de amigos, não haveria, provavelmente, qualquer problema. Porque os amigos se conhecem e sabem até podem ir na relação entre todos.

 

Numa manifestação pública como esta, é preciso ter a noção de que se fala com pessoas que têm, provavelmente, apenas a profissão em comum. Uma piadinha destas ouvida por um emigrante que tenha sofrido na pele agressões racistas certamente não cairá bem. Nem à sua família nem aos seus amigos.

 

No que toca aos problemas da sociedade, como o racismo, cada um tem uma interpretação que provém da sua história pessoal e das suas vivências. Arménio Carlos não teve sensibilidade social para perceber isso, foi imprudente e deveria retractar-se convenientemente. Dizer: “Se por ventura alguém se sentiu incomodado, melindrado com o que eu disse, aproveito então esta oportunidade para pedir desculpas…” é próprio de quem se recusa a aceitar que errou.

 

Para isso, mais valia ficar calado.

Eu acho que
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