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Texto de Ana Cristina Pereira • 30/07/2012 - 17:34
Já lá vão quase 50 anos desde que os suíços puseram os portugueses na lista de trabalhadores de "áreas distantes", demasiado diferentes para se habituarem aos seus usos e costumes. Nos últimos anos, até parecem estar a tomar a Confederação Helvética de assalto. Desembarcam, em média, mil por mês. Só os alemães os superam.
Nem meio milhar havia há 40 anos, altura do desembarque de Manuel Beja, conselheiro das comunidades portuguesas. Era desmedido o poder de atracção de França e desencorajador o estigma na Suíça, só revisto na sequência da entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia, em 1986. No final do ano passado, já havia 224.171, com maior incidência em Vaud, Genebra, Valais e Zurique.
Os portugueses começaram a vir nos anos 1980. A maior parte entrou com autorização de residência sazonal, que lhes permitia trabalhar até nove meses na construção, na restauração, na agricultura. Só depois de 36 meses de trabalho podiam solicitar a autorização de residência anual, que consentia a reunificação familiar. Volvidos cinco anos, estavam aptos para a autorização de residência permanente, que lhes conferia todos os direitos não políticos.
Durante anos, densas redes de família, vizinhança, amizade facilitaram a rápida difusão de oportunidades de emprego entre portugueses. Não por acaso, há, por exemplo, muita gente de Bragança em Schaffhausen, da Póvoa do Lenhoso em Zurique ou de Castro Daire em Zermatt. Vieram primeiro os homens, quase sempre. Só depois as suas mulheres e as suas crianças.
Gonçalo e a namorada, Ana, escaparam àquelas tradições. Muitos escapam àquelas tradições agora que a Internet se generalizou e que o tratado de Schengen derrubou as fronteiras, mas os suíços já protestam. Desde os acordos bilaterais assinados com a União Europeia em 2002, há mais 800 mil habitantes, o tráfego rodoviário e ferroviário aumentou, o preço da habitação subiu, nalguns sítios explodiu.
Ana aterrou a 26 de Novembro de 2011, com um contrato com um laboratório de análises clínicas. Celebrou o Natal e a passagem de ano longe da família e dos amigos de sempre. Gonçalo visitou-a no final de Janeiro, por altura do aniversário. Dir-se-ia que a terra quase tremeu. Nunca estivera tanto tempo sem lhe tocar. "Claro que hoje temos o Facebook e o Skype para matar saudades, mas não há nada como aquele abraço." Ficou encantado com a cidade.
"Parece uma vila. É mesmo o que eu gosto. Decidi que, quando ela fosse a casa, eu vinha com ela." Qual o problema de vir sem trabalho ainda? "Ela tem um salário elevado, tem um contrato sem termo, tem tudo", diz, na sua voz pausada, suave. "Isso dá-lhe uma estabilidade que permite que eu esteja cá e não exerça uma actividade profissional." Não quer eternizar o que, apesar de tudo, sente como um desequilíbrio.
Chegou a 23 de Abril e desde então procura um trabalho. Ainda não arranjou, mas tem esperança. E isso vale ouro. Isso e estar ao pé da namorada num sítio verde, sossegado, arrumado.
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