166 utilizadores online
Texto de Sofia Lorena • 08/06/2012 - 07:30
Os números dizem que já morreram pelo menos 13 mil civis sírios. Os números dizem pouco. Já morreram sírios de todas as idades e em todos os lugares. Já morreram muitos sírios que podiam estar longe da Síria. Basel Shehade, jovem cineasta, tinha uma bolsa Fulbright para estudar na Faculdade de Artes Performativas e Visuais da Universidade nova-iorquina de Syracuse, mas foi morrer num bombardeamento a Homs.
Basel já tinha passado uma temporada nos Estados Unidos - e outra a viajar pelo mundo numa mota chamada Lenine -, mas estava em Damasco quando os tunisinos e os egípcios começaram a protestar contra os seus ditadores, há ano e meio. Na altura, chegou a ser detido por participar em manifestações de solidariedade com os primeiros revolucionários. Foi libertado e, pouco depois, partia para os EUA. A seguir, a revolução saiu à rua na sua cidade. "Ele disse-me: "Não podia ficar longe enquanto a revolução estava a acontecer. Tinha de voltar. Podes sempre estudar depois", descreveu Rima Marrouch, da emissora norte-americana NPR, que o entrevistou.
De regresso, dedicou-se a gravar imagens da violência com que Bashar al-Assad decidiu esmagar a revolta pacífica iniciada há 15 meses. Não lhe faltou trabalho e percorreu a Síria a fazê-lo. Pelo caminho, treinou muitos activistas a fazer o mesmo.
Poucos jornalistas estrangeiros têm conseguido entrar na Síria. Alguns morreram na cidade onde o jovem cristão nascido no bairro Qasa"a de Damasco foi morto, num bombardeamento da semana passada. Como ele, debaixo de bombas. Aconteceu à norte-americana Marie Colvin, veterana repórter de guerra, de 46 anos, e ao fotojornalista francês Rémi Ochlik, que tinha a mesma idade de Basel, 28 anos.
A cidade
Há muitos sírios a serem mortos em muitas cidades, todos os dias. Homs é diferente. Primeiro, "mudou tudo". Em Abril de 2011, o Exército matou ali 50 pessoas num protesto. Nesse dia, sírios em todo o país tiveram "a certeza de que [a revolta] não ia parar", disse ao PÚBLICO o activista Rami Jarrah. Em Fevereiro desde ano, a cidade enfrentou mais de 20 dias de cerco e bombardeamentos cerrados que mataram milhares. A seguir, as forças do regime entraram na cidade e sucederam-se execuções sumárias e massacres.
Só em Homs, onde passou três meses seguidos, Basel treinou mais de 15 pessoas, incluindo fotógrafos que com ele aprenderam a editar vídeo. Pelo menos um dos alunos, Ahmed al-Assam, morreu ao seu lado no bombardeamento contra o bairro de Bab Sbaa, a 28 de Maio.
Hassan, um amigo, descreveu o ataque à NPR. "Fiquei para trás a trancar o meu carro. Vi o primeiro projéctil a cair. Depois o segundo. Levámos Basel e os outros para um hospital improvisado, mas o médico disse que já estavam mortos. Tinham estilhaços em todo o lado." Há um vídeo no YouTube onde vários sírios erguem fotos de Basel e cantam. Depois vê-se um caixão coberto por uma bandeira ser colocado numa carrinha de caixa aberta.
De Homs, Basel planeava viajar para Houla, cidade da mesma província onde a 25 de Maio milicianos leais a Assad mataram 108 pessoas, incluindo 49 crianças.
Os filmes
A Universidade de Syracuse confirmou a sua morte num comunicado do reitor. No texto lê-se que foi morto "quando trabalhava como jornalista-cidadão e filmava ataques das forças de segurança do Governo contra o povo sírio".
Basel realizou curtas-metragens e participou em ciclos de cinema. Uma curta sua que pode ser vista online é Saturday Morning Gift, de 2010, a partir de uma entrevista a um miúdo que sobreviveu à guerra de 2006 entre Israel e o Líbano. Os trabalhos mais recentes eram todos documentais, todos sobre a revolta síria.
Singing to Freedom, por exemplo, que produziu, reúne entrevistas a activistas sírios e a pensadores norte-americanos à volta da ideia de resistência pacífica. Noam Chomsky e Amy Goodman são dois dos entrevistados; outra é Razzan Ghazzawi, "ouvida no seu esconderijo em Damasco". Razzan, de 31 anos, nascida nos EUA, é a única blogger que escreve em inglês a partir da Síria. Foi detida pela primeira vez em Dezembro, voltou a ser presa em Fevereiro.
Basel e Razan não são os únicos sírios que podiam ter escolhido estar em qualquer outro sítio e preferiram estar na Síria. Ao ficar, Razan cresceu e descobriu medos e defeitos, disse ao PÚBLICO numa entrevista em Março. "Nesta revolução, descobri a esperança. E agora posso escrever que conheci heróis extraordinários no meu país. Até esta revolução começar, a palavra "herói" não existia no meu dicionário."
Tags
Vê também