Paulo Pimenta

Porto

O adeus ao “quiosque do piorio” ou o sonho (im)possível de uma outra cidade

Contrato entre associação das Worst Tours e a autarquia portuense chega ao fim. O quiosque amarelo vai mesmo ser “retirado”, depois de ter ensaiado um novo modelo, como casa de vários colectivos da cidade. “Festa de encerramento” acontece esta quinta-feira, 31 de Maio, ainda com esperança noutro desfecho

Texto de Mariana Correia Pinto • 30/05/2018 - 17:00

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O quiosque amarelo da esquina da Avenida Rodrigues de Freitas com a Rua D. João IV vai mesmo ser “retirado”. A dúvida em relação ao futuro da casa das Worst Tours é esclarecida pelo gabinete de comunicação da câmara do Porto, em resposta às questões do P3, e conduzida ao “quiosque do piorio”. Como se convence “o metro quadrado mais optimista da cidade” que o fim do contrato não tem volta? Não se convence. Margarida Castro Felga recusa-se a acreditar. Pedro Figueiredo também. Os dois arquitectos, rostos do projecto que desde 2012 mostra o lado b da cidade com passeios pelo seu lado menos turístico, não aceitam a ideia do fim de um projecto associativo com sucesso. “Esperamos que mudem de ideias”, comenta Margarida em jeito de esperança: “Não é suposto destruir o que está a uso. Há tanto para fazer na cidade.”

 

Não foi esse o entendimento do executivo de Rui Moreira. Depois de ter voltado atrás na intenção de cessar antecipadamente o contrato e aceitado que o mesmo se prolongasse até ao fim de Maio, a autarquia disse não à proposta de compra feita pela Associação Simplesmente Notável, que em 2016 deu uso a um quiosque dos anos 60 e sem vida há coisa de uma década. Falou-se de demolição, de uma “eventual hasta pública de arrendamento”. Mas a decisão ficou-se pela retirada do edifício público, não esclarecendo a autarquia o que fará com ele depois disso: “Naquele local não deve haver um equipamento daquele género e formato, face ao conceito que [a câmara] tem para aquele espaço”, esclarecem, e por isso “o contrato termina naturalmente”.

 

Os criadores das Worst Tours não desistem, apesar de o fim do quiosque não significar a extinção dos passeios pelas ruelas menos badaladas da cidade — isso continuará, aconteça o que acontecer. A caminho do gabinete de Rui Moreira está “(só mais uma) carta de amor pelo quiosque”, onde propõem à autarquia um “contrato de comodato” com a associação, que se compromete a "mantê-lo aberto a todas as participações e intervenções e a manter o exterior do quiosque como espaço para colagem de cartazes, como tem funcionado”. No mesmo envelope segue um abaixo-assinado rubricado por quase 700 pessoas e mais de 450 cartas oriundas de geografias distantes, onde turistas que passearam pelo Porto pelas mãos de Margarida e Pedro pedem a manutenção do edifício onde se faz “serviço público”: “Permitir que um projecto com um cariz tão político e crítico tenha um espaço da cidade arrendado mostra o quão aberta, crítica, inteligente e sofisticada é a democracia de Portugal”, lê-se numa das cartas.

 

Mesmo com sabor agridoce, a “festa de encerramento” — que os arquitectos esperam “temporário” — vai acontecer. E todos estão convidados. Esta quinta-feira, 31 de Maio, a partir das 15 horas e com convocatória para estender a festa ao "churrasco" contra os despejos, na Cordoaria, vários colectivos da cidade juntam-se no quiosque amarelo para celebrar a existência de um projecto que é muito mais do que turismo e dois empregos criados. E que tem planos de partilhar o seu metro quadrado com quem “precisar de espaço".

 

Assim tem acontecido nas últimas semanas.

 

Flora Paim e Inés Ballesteros vestiram-se a rigor para dar a conhecer a sua “agência de remediação imobiliária”. Quando souberam que Margarida e Pedro estavam a abrir o quiosque a outros projectos, começaram a idealizar a 100 Lar, um desafio aos “limites impostos pela realidade e às boas práticas da construção civil para idealizar novas formas de habitar o espaço urbano”. Inés apresenta o panfleto, a fazer lembrar um agência de imobiliário da praça, ao primeiro curioso. Para contratar os serviços de remediação é preciso escolher um dos terrenos disponíveis e assinar um contrato. Depois, a realidade virtual entra em acção: com os óculos postos, vê-se a projecção utópica de um terreno já transformado e do seleccionado, onde se pode “idealizar o sonho da casa imprópria” no Porto. No final, vem um cartão para memória futura: “Parabéns, você acaba de se transformar um/uma agente especulador/a.”

 

Flora nasceu em Salvador, Inés em Saragoça. Estão na cidade há coisa de dois anos, a fazer um mestrado na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Elegeram a geografia no norte do país pela qualidade de vida que tinham identificado por ali: Inés no tempo em que esteve por lá a fazer Erasmus, Flora por uma visita na pele de turista. E agora parte dessa visão está a ruir. “Está cada vez mais difícil viver aqui”, lamenta Inés, cujo prédio onde habita já foi vendido por duas vezes em dois anos, com os valores sempre a subir. Estará o seu despejo iminente? Foi para “chamar a atenção” para esta temática que criaram a agência 100 Lar: “Queremos mostrar que ainda há espaços vazios e plantar a ideia do sonho”, diz Flora. E olhar para algumas medidas tomadas em Espanha, sugere Inés, pode ser útil: “O valor das coisas não pode ser só económico. É preciso gerar formas de viver que não estejam dentro dessa lógica neoliberal.”

 

Do Brasil chegou também o “jogo do banco mobiliário” ao Jardim de São Lázaro, onde os 50 bancos foram numerados e se criou uma história para cada um. Aurora dos Campos, Amanda Copstein e Talitha Filipe desenharam um mapa e convidaram as pessoas a escolher um dos bancos: lá conheciam a história criada pelo trio da Agência de Investigação Espacial e podiam escrever a sua. E muita gente o fez. Narrativas muito impressivas, sobre o ambiente à volta, duas sobre a sueca, muito jogada por ali, um menino de oito anos que voltou por três vezes e engendrou contos de bruxas. “A ideia era propor uma pausa, estar de bobeira, envolver-se com algo sensorial”, comenta Aurora. Afinal, quiseram provar, o espaço público pode ter imensas utilidades. E as estudantes, a viver no Porto há oito meses, faziam questão de integrar este momento difícil da vida do quiosque amarelo. “A gente desconfia que isto seja ideológico. É muito triste esse olhar tractor, que não percebe que a diferença é importante para o bairro e a cidade”, aponta.

 

Assim o entende também o projecto cultural Samba sem Fronteiras que se viu sem casa há coisa de um ano, depois de o seu casarão ter sido promovido o hotel. Para o denunciar, o colectivo luso-brasileiro criou o Gentrificasamba — cujo videoclipe foi gravado no quiosque — com uma letra que bem podia tornar-se hino de um protesto: “Fechou o livreiro, fechou a quitanda e o florista/ A cidade vai virar só hotel para turista”.

 

Pelo espaço no Porto Oriental, passaram ainda a primeira edição do jornal Bomfim, as fanzines Flanzines de João Pedro Azul, uma casa de câmbios com moeda própria, workshops de pintura, desenho e colagens (pelas mãos de Paulo Ansiães Monteiro, Ana Deus, Tiago Afonso e Bárbara Ferreira), uma festa no 25 de Abril. E houve até uma visita inesperada de Pacheco Pereira, que sacou do telemóvel para fotografar o edifício e, dizem os proprietários, terá dado o seu parecer: "O despejo é uma tontice."

 

Se o quiosque continuar, aponta Margarida Castro Felga, terá de ser assim: a abrir portas a novas ideias, projectos sem casa, gente sem palco. Eles sabem que são uma minoria — “basta olhar para os resultados das eleições”, concede Margarida —, mas “as democracias também se caracterizam pela forma como tratam as minorias”. Afinal, “porque quereria a câmara esmagar um quiosquinho que não incomoda ninguém”?

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