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Crónica

Bater a bota com estilo

Muito bem. Já que não posso pedir para ser eutanasiada, vou recorrer a uma técnica para contornar este obstáculo: sacar do testamento vital. Um documento com um nome pouco sexy, onde posso dar ordens para quando estiver “mais pra lá que para cá”

Texto de Raquel Correia • 30/05/2018 - 14:33

Raquel Correia é médica, copywriter, intrinsecamente curiosa e quase sempre sarcástica

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Li numa cartolina sensaborona "Não deixem morrer os velhinhos!". Como se, no charme da velhice, entre o comprimido da diabetes e as Tardes da Júlia, nos fosse entrar em casa a "brigada anti-velho" e fanar o pêlo aos graúdos. De facto a eutanásia é isto: ceifar quem já não impressiona com habilidades gaiteiras.

 

Nos outros casos, como num acidente grave, faz absoluto sentido manter em vida custe o que custar. Por mim falo. Pouco importa se saio de uma dessas sem poder comunicar ou mexer-me. O que importa é estar ali a fazer missa de corpo presente e a empatar a vida dos que me são queridos. Quero ficar ali a cristalizar e fossilizar o máximo de tempo possível. Nunca se sabe…

 

E, claro, em casos de doença grave e irreversível, é importante para mim que me impeçam de decidir que quero partir enquanto ainda estou airosa e rija (mental e fisicamente). Grata pelo vosso bom senso.

 

É aqui que entra o testamento vital ou a arte de dar ordens para quando estiver mais morta que viva.

 

É um privilégio ver pessoas que empunham cartazes debochados. Não tenho é paciência para decisões bacocas. Como nada há a fazer quanto a isto, vou sacar do papel. Qual papel? O testamento vital. Sim. Uma óptima maneira de dar ordens, ser insana e sarcástica — no fundo o que sou em vida — quando estiver prestes a bater a bota. 

 

Trocando por miúdos, qualquer pessoa com mais de 18 anos, lúcida — ou seja, preferencialmente sem ser depois de sair da noite ou do Boom ou quando está com tensão pré-menstrual — pode criar Directivas Antecipadas de Vontade (DAV). Sem nomes pomposos: uma lista com o que quer que seja e o que não quer que seja feito, quando estiver a resvalar para o limbo.

 

Eu, por exemplo, quero dar uma de múmia egípcia. Quero que me banhem em leite de burra, me untem com Barral e encham o meu quarto hospitalar de peças da Vista Alegre, para o pessoal poder palmar alguma coisa de valor enquanto eu finjo que fecho a pestana. Ai de quem tente pôr-me tubos em orifícios e me dê muitas mezinhas para eu ficar ali armada em dálmata de loiça! Juro que volto para vos beliscar a penca!

 

Na prática, deixar a lista preparada e online. Bem sei que somos pouco organizados mas ter um documento destes é ser generoso para quem leva connosco no hospital e, sobretudo, para a família e amigos!

 

Não quero que me dê um chilique e ninguém saiba o que fazer deste mono. Quero facilitar ao máximo a vida aos que por cá ficam, que eu, obrigadinha, vou estar tranquila "da vida" a curtir no limbo. Os que ficam, coitados, vão ter de andar a limpar a pecuária onde vivo, a arrumar os meus tarecos e a chorar porque de pertences deixarei pouco mais que livros. Por isso, vou preencher o dito documento e depois vou chatear quem de direito com isto: o médico de família ou um notário.

 

Se nos próximos tempos a morte ou a doença me baterem à porta … porque ao que parece não acontece só aos outros — fica tudo avisado que quero que me dêem todos os medicamentos à disposição para que eu parta apetitosa e de chakra alinhado. Autorizo botox e morfina.

 

O melhor que posso fazer neste momento, não podendo decidir que quero ser fanada, é deixar-vos tudo por escrito para que se orientem na minha ausência.

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