Toby Melville/Reuters

Crónica

A problemática da realeza

Em Inglaterra, o sotaque com que se nasce e o vocabulário com que se cresce determina toda uma vida, fazendo jus a um sistema classicista onde a ascensão social não é apenas pouca, é inexistente, onde o filho do pedreiro será sempre pedreiro

Texto de João André Costa • 21/05/2018 - 11:06

João André Costa
João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Londres, vírgula e perdão, Windsor, sábado, 19 de Maio, o sábado há tanto esperado, as multidões na rua, as multidões apinhadas nos comboios apinhados a caminho de Windsor e Londres, ainda para mais num dia de sol e calor, coisa rara nestas paragens (o calor, sol ainda faz, mas não se sente), e toda a gente na rua, não tanto para ver mas desfilar, desfilar e celebrar este casamento real, sem esquecer a rainha e as bandeirinhas em punho, agitadas no ar e no vento.

 

E tudo estaria bem, não fosse o facto de tudo estar mal. Não por ter algo contra o Harry e a Megan, não tenho e desejo-lhes toda a felicidade do mundo, mas conquanto exista uma família real e um rei ou uma rainha à cabeça, a verdade é só uma: o feudalismo estará para continuar, doa a quem doer, e dói, dói a muitos.

 

Porque em Inglaterra o sotaque com que se nasce e o vocabulário com que se cresce determina toda uma vida, fazendo jus a um sistema classicista onde a ascensão social não é apenas pouca, é inexistente, onde o filho do pedreiro será sempre pedreiro, o filho do professor, professor, o filho do patrão, patrão, e o filho do senhor da terra, o futuro senhor da terra.

 

A título de exemplo, se numa entrevista de emprego usar termos característicos do léxico da "working class" (vulgo, malta do obral) como sejam “bog” (casa-de-banho, termo hilariante de tão visual) em vez de “toilet” ou “innit“ em vez de ”isn’t it“, o mais certo é sair da entrevista como entrei, de imediato julgado e condenado pela minha suposta falta de educação, falta de educação essa fomentada pelo próprio sistema vigente, assim garantindo a continuidade de quem está por cima por muitos e bons anos.

 

Para quem não sabe, se em Inglaterra quisermos comprar uma casa, existe uma altíssima probabilidade de não se poder comprar a terra onde a casa se insere, uma vez que a terra não é propriedade do Estado mas de um qualquer nobre cuja sorte divina lhe permite passar a vida sem trabalhar. Quer isto dizer que o "proprietário" da casa não só tem de pagar a casa ao banco como também tem de pagar uma ground rent para poder ali viver, ground rent essa que, em Londres, pode ser qualquer coisa como 400 libras por ano. Deste modo, a nobreza continua a garantir o seu sustento à custa da plebe, isto é, nós. E tudo porque Deus quis. Porque a Rainha quis, e o povo deixou.

 

Vocês sabiam que existe um senhor chamado Hugh, 7.º Duque de Westminster, o qual é dono de 120 hectares no centro de Londres, incluindo a Oxford Street, num valor total de 4,8 mil milhões de libras? Eu também não, mas agora sei. E a minha pergunta é só uma: porquê? Como se permite a uma pessoa só, a uma família só, o controlo das terras, das pessoas e das suas vidas a custo de nada, fomentando a desigualdade e o fosso entre ricos e pobres, apenas porque sim?

 

Portanto, por conseguinte e por consequência, não nos bastando ter de pagar para viver, para respirar, ainda por cima não nos é permitido melhorar a condição de vida porque tivemos o azar, lá está, porque Deus quis, de nascer filho e filha de um pai canalizador e uma mãe mulher-a-dias, e enquanto assim for, e enquanto existirem reis e rainhas, príncipes, princesas e casamentos reais, assim será, até que o povo deixe de deixar. A revolução tarda em chegar, mas as suas palavras já ecoam nos ouvidos: liberté, égalité, fraternité. Falta agora traduzi-las para inglês.

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