Por detrás de cada cicatriz, uma história de sobrevivência

autoria Ana Marques Maia

// data 17/05/2018 - 15:28

// 22003 leituras

"Na origem do fogo esteve um episódio de violência doméstica", confessa Mercy, uma das retratadas do projecto Behind The Scars, cujo corpo se encontra coberto de cicatrizes. "Queimei-me com 29 anos e percorri uma longa jornada até aceitar o que me aconteceu. Hoje em dia, traz-me algum conforto olhar para elas [as cicatrizes]. São parte do que sou hoje. Chamo-lhes as peças de joalharia mais caras e preciosas que tenho."

 

Samanta tinha apenas 14 anos quando, acidentalmente, disparou uma arma de fogo em direcção ao seu próprio abdómen. "Condenou-me, para o resto da vida, a estar presa a uma cadeira de rodas. Apesar do que possam pensar, nunca encontrei uma razão para me vitimizar. As minhas cicatrizes físicas e espirituais tornaram-me mais forte, confiante. Queria ser jogadora de ténis e tornei-me jogadora de ténis. Quis ser modelo e adivinhem... hoje sou modelo."

 

Chloe começou a mutilar-se aos 13 anos. Os seus braços estão marcados por linhas transversais resultantes de cortes auto-desferidos. "A questão com a auto-mutilação é que se torna progressivamente mais grave; acabas por causar mais dano a ti próprio do que achavas que seria possível quando começaste. É uma verdadeira adição." Hoje encara as cicatrizes como testemunhas do seu percurso pessoal.

 

"De certo modo, todas as minhas cicatrizes foram auto-infligidas", contou Elijah à fotógrafa que o retratou. "Sou um homem transexual. Em Maio de 2016 fiz uma dupla mastectomia. Estas cicatrizes são o meu novo peito, o peito que sempre quis. Elas representam o meu género, a minha identidade. Nem sequer consigo lembrar-me que tive outro peito a não ser este."

 

"Fiquei gravemente queimada num acidente de autocarro, em 2013. A minha vida ficou virada do avesso. Lutei pela vida, pela minha capacidade física, pelo meu futuro. Hoje, com 23 anos, já aprendi a amar a pele que habito, já abracei o facto de ter sobrevivido com 96% da superfície do corpo queimado." Para Catrin, cada cicatriz representa um passo em direcção à auto-aceitação.

 

A jovem fotógrafa britânica Sophie Mayanne considera impossível determinar quais as histórias mais poderosas do projecto Behind the Scars. A série consiste num conjunto de retratos fotográficos de pessoas que vivem com cicatrizes corporais e que partilham as histórias que lhes deram origem. Os conceitos de auto-imagem, perfeição, auto-estima, auto-aceitação estão no centro da discussão que o projecto pretende gerar. "O projecto teve início com base em mera curiosidade e interesse por cicatrizes e por todas as histórias que lhes estão associadas", disse Mayanne ao P3, em entrevista. "À medida que foi crescendo, o projecto foi adquirindo uma mensagem mais poderosa e passou a significar coisas diferentes para diferentes pessoas. Para algumas, Behind the Scars é sobre força, resiliência, empoderamento. Para outras é sobre imagem corporal. Para mim, no centro ainda está um interesse genuíno pelo corpo humano e pela experiência individual de cada um." Para muitos dos retratados, o projecto assume um papel catalisador do processo de auto-aceitação. "Acredito que o projecto ultrapassa apenas o retrato físico — muitas histórias são sobre saúde mental, sobre o impacto de uma cicatriz ao nível psicológico."

 

Porque é que há mais mulheres do que homens na série de imagens de Sophie? "O projecto começou por ter enfoque nas mulheres, mas desde que se tornou mais visível, mais homens têm entrado em contacto comigo, no sentido de participarem. Recentemente, tive o trabalho em exposição e, ao olhar para os retratos masculinos, notei que esses eram mais meditativos. A experiência que adquiri até hoje diz-me que a perspectiva masculina também é bastante complexa. Talvez a vulnerabilidade inerente a estar despido diante de uma câmara seja mais intimidatória para eles do que para elas. Ou talvez o facto de eu ser mulher faça diferença — quem sabe?"

 

Sophie Mayanne comprometeu-se, a 12 de Outubro de 2017, a nunca mais manipular digitalmente os corpos e rostos presentes nas suas fotografias. Considera que cada corpo é único e que os seus "defeitos" devem deixar de ser percepcionados desse modo e vistos apenas como características, desprendidas de julgamento. Behind the Scars tem uma conta de Instagram dedicada, onde é possível ver todos os retratos do projecto realizados por Sophie até ao momento.

Eu acho que