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Crónica

A homossexualidade não passa de pai para filho

Lembras-te do Simão? Gostavas tanto dele. Ele tem a consciência que é maricas e vive nas suas mariquices respeitando o outro. (E tu, pai, quando chamas maricas a alguém?) Ele é maricas e eu gosto dele. Somos dois maricas que sonham viver num mundo melhor

Texto de Amaro Figueiredo • 11/04/2018 - 16:24

Amaro Figueiredo é aprendiz de escrita romantizada sem remetente

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Quero contar-te uma coisa, pai. Não me conheces. Esta é a primeira metáfora da nossa relação. Nunca "vi sorrir o amor que tu me deste". Nunca afinámos abraços com o coração a bater. Nunca gritámos juntos "golooooooooooo". Nunca foste a uma reunião de turma. Nunca vi os animais pelo cano da espingarda (como-gostas-de-fazer-com-os-teus-amigos-ao-domingo-em-Mirandela). E o mais patético é que nunca falámos de namoradas ou dos medos que tenho. Tenho tantos, de facto. (Não há razão nenhuma para te contar. Coisas minhas.)

 

Pai, desinteressava-me.

 

Perguntei a mim mesmo que vantagem haveria em te conhecer como pai. O tempo obrigou-me a cometer erros, a mentir e o teu aconchego foi o silêncio. "É a vida." Quando esperamos pelo colo que não existe. É como os amigos: estão longe, na vida deles. Não é preciso tudo, mas é preciso alguma coisa. 

 

A ilusão era a mesma e os poetas que dizem "o meu é o melhor" são todos uns mentirosos. Tudo pode ser depois. Muito raramente é agora. Eu podia ser outra coisa. Qualquer outra coisa. Mas dentro deste armário só existe estilhaço e como filho perfeito não sou o melhor. Com certeza que, se me conhecesses, dirias o mesmo…

 

Lembras-te do Simão? As vezes que já estive perto de te contar. Gostavas tanto dele. Não imaginas a minha frustração, a minha angústia. Ele é maricas e eu gosto dele, sem quaisquer adornos, ou desculpas, indiferente à negação ou ao desafio. Ele é maricas e tem tantos sonhos. É "culpado" todos os dias pela sobrevivência da espécie, vivendo num paradoxo de identidade e ausência. É fácil ser maricas entre outros maricas, pai. A vida está a mudar. Todos os dias ele sente que ser maricas é uma pré-condição (não sei de quê), mas não suficiente para ser verdadeiramente feliz. Pode também ser uma questão de amor, de vulnerabilidade. Ele tem a consciência que é maricas e vive nas suas mariquices respeitando o outro. (E tu, pai, quando chamas maricas a alguém?) Ele é maricas e eu gosto dele. Gosto dele pela inveja dos sonhos, pela sensibilidade que não tenho, pelas certezas que gosto dele e ele gosta de mim. Somos dois maricas que sonham viver num mundo melhor, pai. 

 

A homossexualidade não passa de pai para filho. Agora, dói ainda mais. A cabeça anda à roda. O Simão foi embora. 

 

Na realidade eu sou infeliz, pai. É evidente que a minha essência sofre pelos obstáculos que o mundo abona e pouco a pouco sou derrotado. Amontoaram-se ambiguidades, regressos, partidas, tropelias de amor. O sonho que persiste, traz-me aqui, novamente aqui, a esta casa de instantes e ofegante. Olho para todo o lado, e estou sempre sozinho. Não me podes deixar fraquejar, pai. Onde estás? Não te esqueças de mim. A mãe sabe, tenho a certeza.

 

Até lá, faltam-me abraços. 

 

Do teu filho que é maricas, como gostas de chamar aos filhos dos teus amigos.

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