A “poética” vida a bordo de uma caravana de circo

autoria Ana Marques Maia

// data 22/04/2018 - 18:30

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Eles “mudaram, alargaram, demoliram e reconstruíram o conceito do circo tradicional inventado por Barnum e Bailey, que incluía espectáculos de aberrações e números com animais”. “Fundiram inúmeras disciplinas e artes” para criar aquilo que hoje denominam “circo moderno”, descrito por Stephanie Gengotti como “algo tão poético, intemporal e romântico” que é capaz de transportar o espectador “para um outro planeta”. Eles dão pelo nome Les Pêcheurs de Rêves (Os Pescadores de Sonhos, numa tradução livre) e são a companhia de circo francesa, de base familiar e natureza nómada, que a fotógrafa italiana acompanhou ao longo de várias semanas, enquanto decorria a tournée por terras gaulesas.

 

A companhia é composta por seis “pescadores de sonhos”: a dupla de palhaços Vincent e Florence, pais de Zia e Zorhan, de 13 e dez anos, respectivamente, e o técnico Marco, pai solteiro de Luna, uma menina de seis anos. “Eles vivem em viagem pelo mundo, oferecendo a sua arte a quem queira observar beleza e encanto de mente aberta, sem preconceito”, explica a fotógrafa, em entrevista ao P3. “O casal desempenha os papéis de Za e Krapotte, dois palhaços unidos por matrimónio. No espectáculo, parodiam a própria vida e o próprio casamento. A ficção mistura-se com a vida real — tanto que ambos afirmam estar casados sob um 'regime palhaçal'." A performance tem o título Nez Pour s’Aimer (Nascidos Para se Amarem, tradução livre) e consiste numa “história de amor e humor baseada num jogo de assonância surrealista”. Os seus filhos, Zia e Zorhan, passam o Verão a viajar com os pais. “Enquanto os pais dormem nas caravanas, as crianças dormem juntas numa tenda, onde são livres de criar o próprio universo", relata a fotógrafa, que se confessa fascinada pelo estilo de vida do pequeno grupo. “São muito livres, embora mantenham fortes os laços familiares. Viver no circo significou tornar-me um membro da família e discutir cada pormenor. Nada fica por dizer, tudo é discutido e resolvido antes de se entrar em cena”, descreve. Além de amor e drama, há pouco conforto e muito trabalho árduo que decorre sob qualquer tipo de condição meteorológica.

 

Circus Love — assim se chama o projecto fotográfico, distinguido a 3 de Abril último pelo Zeiss Photography Award — teve início em 2016, quando Stephanie foi contratada por uma revista italiana para fotografar dois casais de artistas da companhia Cirque Bidon. “Não tinha ideia de que viria a apaixonar-me pelo que estava prestes a ver”, admite. A experiência na estrada, em convivência com as diversas companhias que documentou, tornou Stephanie consciente do que havia perdido enquanto imersa num mundo hiper-tecnológico: “o sentido de partilha, o sentido de família, a capacidade de fazermos coisas com as nossas próprias mãos”. “Até a simples ligação à natureza se perdeu. Dependemos dos nossos telefones como robots, vivemos alienados a observar as vidas ficcionadas de terceiros através das redes sociais.” O circo permitiu-lhe desacelerar, fazer uma pausa, “deter a louca corrida” que a separava da dimensão humana. “Vivemos uma era de vazio absoluto, especialmente em Itália; uma época sem personalidade, sem conteúdo”, lamenta. “O projecto é o meu grito de rebelião, de revolta contra um mundo em que deixei de gostar de viver.”

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