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Crónica

Um médico doente no hospital? Eu!

Os médicos enfrentam os seus problemas também. Deveríamos falar sobre eles. E tentar mudar. O que não ajuda nem uns nem outros é vomitar preconceitos fáceis e grotescos sobre milhares de profissionais

Texto de Bruno Maia • 07/03/2018 - 12:10

Bruno Maia
Bruno Maia é médico neurologista, activista pela legalização da cannabis e da morte assistida

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Acabo de sair do hospital após uma pequena intervenção e deparo-me com uma crónica no P3 intitulada Um médico doente no hospital, de João André Costa. Vacilo numa contradição exasperante entre a realidade imediata que vivi e a dureza das palavras de alguém que escreve com frequência no jornal que mais leio. Sou médico e tive uma pequena (felizmente) doença que tratei num hospital público. Fui atendido por uma médica jovem (tal como aquelas da crónica), sorridente do princípio ao fim, solícita e disponível, que me explicou diligentemente todo o procedimento e os cuidados que preciso de adoptar no futuro. A intervenção estava marcada para as 19 horas e eu entrei na sala às 19h05. Era o último doente do dia — não passei à frente de ninguém só por ser médico —, um dia que, imagino, para a minha colega já levava umas belas 12 horas de trabalho e umas boas dezenas de doentes.

 

Não tenho ilusões desmedidas sobre os médicos ou a Medicina. Conheço ambos muito bem para me transfigurar num utópico. Mas sei também o que chamar a um sentimento de ódio ou repulsa atribuído a todo um grupo de pessoas que partilham características semelhantes, baseado apenas numa amostragem pessoal e imperfeita: preconceito. O João André Costa é preconceituoso e tem, provavelmente, uma qualquer agenda escondida em relação aos médicos (precisamente numa altura em que se convoca uma greve nacional de médicos). Não é sequer um preconceito elaborado ou original, é muito vulgar entre pessoas que, não tendo feito o mínimo esforço para compreender o significado do que dizem, "verborreiam" para passar o tempo.

 

Quando era aluno de Medicina tive um professor que argumentou, durante uma aula, que o VIH passava pelos “poros” do preservativo, sendo um instrumento inútil no combate à epidemia. Protestei na altura e fiz queixa. Mas nunca em momento algum pensei ou emiti juízos sobre a “seriedade” de todos os professores. Os professores enfrentam muitos problemas na sua profissão. Ausência de colocação, horários parciais longe da sua residência, salários baixos para as responsabilidades que têm, turmas com excesso de alunos, trabalho de casa não remunerado e muito pouco reconhecimento pelo valor do seu trabalho. Sobre isso vale a pena falar. E tentar mudar.

 

Os médicos enfrentam os seus problemas também. Deveríamos falar sobre eles. E tentar mudar. O que não ajuda nem uns nem outros é vomitar preconceitos fáceis e grotescos sobre milhares de profissionais. Há médicos horríveis? Claro que há! Assim como professores! Mas nem por isso devemos ser minimamente complacentes com o preconceito. Desejo que o problema de saúde do João André Costa se resolva da melhor forma possível. Assumindo que esta crónica é real. Caso contrário, tudo aquilo que escreveu é simplesmente abjecto.

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