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Crónica

Mais um Dia dos Namorados... sem namorada

Mais um Dia dos Namorados e eu ainda não tenho idade para ter uma namorada. Uma namorada a sério. Mais um Dia dos Namorados e eu estou sozinho. Mas não será sempre assim. Eu sei. E não desisto. Entretanto escrevo para ti, para quando chegares, esta pilha de cartas de amor sem fim

Texto de João André Costa • 14/02/2018 - 10:21

João André Costa
João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Acordo. É Dia dos Namorados. Outra vez. E o que o eu queria mais, por uma vez que fosse, era ter uma namorada no Dia dos Namorados.

 

Mas não, ninguém quer saber de mim, a Patrícia não quer saber de mim, a Tânia não quer saber de mim, a Joana já não fala comigo, tenho o namorado da Luísa à perna (sabia lá eu que a rapariga tinha namorado?), a outra Tânia diz que só gosta de mim como amigo e, aos poucos e poucos, começo a esgotar a lista de miúdas da turma.

 

É Dia dos Namorados e alguém me dirá, anos mais tarde, descaramento não me falta. Devo sair ao meu pai. Mas o meu pai era um galã nos seus tempos de juventude, um verdadeiro gingão da noite e as raparigas a fazer fila, e eu não, eu tenho um par de óculos cujos fundos de garrafa permitem ver duas moscas pequeninas a nadar lá no fundo, moscas essas que fazem pandent com os andaimes e gruas a crescer por entre os dentes e a boca numa tentativa infrutífera de trazer estes dentes de coelho de volta à boca. Ah, e os pés? São tortos.

 

Portanto, meninas, não tenho hipótese, eu sei, não tenho roupa de marca, não jogo à bola, não faço surf nem body, não tenho uma mota mas tenho uma bicicleta, com rodinhas, as borbulhas crescem-me no rosto como o anel de fogo do Pacífico e na escola levo calduços de toda a gente enquanto me atam os atacadores dos sapatos e mandam correr os 100 metros obstáculos, para delírio geral, todas as segundas de manhã.

 

Mas eu não me importo. Sou do signo touro e sou teimoso, um dia destes hei-de entrar para a universidade e estudar Biologia, ajudar o mundo, salvar os animais de nós próprios, e desculpem esta consciência e discernimento quando mais ninguém tem discernimento e as miúdas só querem saber de ser a próxima Beyoncé e os rapazes o próximo Jay Z.

 

E talvez não seja eu que seja feio, talvez sejam vocês que são todos feios, sem beleza interior à vista por quilómetros e quilómetros sem fim, superficiais, insonsos, sem nada mais para além da formosura que morre com a idade, senão não me tratariam assim, senão não me chamariam nomes assim, e portanto não sou eu que não vos mereço mas o contrário e, portanto, um dia destes hei-de entrar para a universidade e encontrar alguém que me compreenda pelo que sou e pelo que penso, e não pelo que pareço, e desculpem-me esta precocidade.

 

Porque, já dizia a minha avó, precisamos de alguém ao nosso nível, com interesses em comum mas também sonhos e ambições, para viver e partilhar e, juntos, viver uma vida a dois, para sempre.

 

Mais um Dia dos Namorados e eu ainda não tenho idade para ter uma namorada. Uma namorada a sério. Mais um Dia dos Namorados e eu estou sozinho. Mas não será sempre assim. Eu sei. E não desisto. Entretanto escrevo para ti, para quando chegares, esta pilha de cartas de amor sem fim.

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