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Crónica

Estamos conversados

Passeando por este Portugal fora, várias são as esplanadas onde mesas atestadas de pessoas estão de olhos postos no “smartphone”

Texto de Gonçalo Câmara • 30/01/2018 - 11:47

Gonçalo Câmara é locutor de rádio na Cidade e autor do livro de crónicas Já Dizia O Outro

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Há boas conversas e más conversas. Há conversas sérias e inteligentes, interessantes e desinteressantes. Há conversas sensatas e lunáticas, coerentes e incoerentes. Conversar é uma arte. Hoje em dia falamos muito e conversamos pouco. Ou, às vezes, nem isso.

 

Veja-se a cena, numa bonita tarde de Janeiro, quando reencontro duas pessoas amigas num quiosque junto ao rio, ali na Ribeira das Naus. Ao perguntar-lhes como lhes corre a vida, nenhum dos dois se desfoca do telemóvel.

 

- Então, que tal vai isso?, respondeu um deles, depois de enviar o que tinha a enviar.

 

Aqui, o chocante não é terem ignorado a minha presença. Aqui o que choca é eles próprios não se darem conta da presença um do outro. Passeando por este Portugal fora, várias são as esplanadas onde mesas atestadas de pessoas estão de olhos postos no smartphone.

 

Quando fui visitar a minha irmã a Buenos Aires fiquei a dormir na casa onde ela estava a morar. Partilhava-a com mais quatro amigas e todas as noites recebiam amigos no simpático terraço do rés-do-chão da Rodriguez Peña. Uma noite, estava eu a preparar os passos seguintes da minha viagem, quando os estudantes de Direito e amigos da minha irmã se juntam todos lá fora à conversa. Foram horas naquilo. Não apanhei todos os pormenores porque a minha atenção estava noutra direcção, mas, quando me ia apercebendo dos detalhes, a conversa mudara de rumo várias vezes. Dos professores de Penal até aos astronautas da NASA e da vida que possa existir por essa galáxia fora.

 

Deu-me um gozo enorme ver o desenrolar daquele moroso diálogo. Foi até de madrugada. Entretanto deitei-me e lá continuavam. Pensei: “Faltam conversas destas”. Nem que seja desconversar algures para depois se dar início a uma mais concreta e duradoura.

 

Pessoalmente, gosto mais das tardias, com amigos, sem rumo nem tempo, com o whisky em consonância com o gelo. Daquelas em que, acabando o whisky, acaba-se o tema. Vai tudo para casa. Soam melhor acompanhadas. A falar dizem-se coisas, a conversar, entendem-se. Há mais do que palavras ali deixadas, há experiências, há partilha. Há sempre tempo para um café como há sempre tempo para uma conversa. Mas, como em tudo na vida, quando a conversa é boa, o tempo tem pressa.

 

Entristece-me ver o rio como pano de fundo quando não há conversa. Ver aquelas mesas esverdeadas com os copos de cerveja ainda cheios, os cinzeiros por vazar e os cigarros a metade, enquanto o olhar está vidrado naquele bloqueador de diálogo de cinco polegadas. Esta ideia de duas pessoas estarem frente a frente, sem qualquer tipo de ruído, a trocar umas ideias entre comezainas, sejam elas interessantes ou tolas, parece estar em extinção — nos novos e nos velhos.

 

Estamos conversados.

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