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Saúde

Uma “selfie” para pôr as pessoas a falar de aborto espontâneo

No Twitter, a artista Paula Bonet revelou que sofreu dois abortos espontâneos num ano. Porque é preciso falar “destas coisas”

Texto de P3 • 23/01/2018 - 17:57

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Chamou-lhe “auto-retrato num elevador com embrião com coração parado”. E isso seria o suficiente para pôr os corações de quem a leu desconcertados. Mas a artista Paula Bonet não se limitou a tirar uma selfie e fazer uma legenda. Escreveu no Twitter (transformando o texto numa imagem, porque aquilo que tinha para dizer não se explica nos caracteres limitados da rede social) para contar que em apenas um ano teve dois abortos espontâneos. Não o fez em busca de “consolo”, mas numa tentativa de “normalizar” o assunto: “Não temos de falar baixinho nem ocultar informação, temos de saber aquilo que enfrentamos para podermos estar preparadas”.

 

A fotografia que a artista valenciana de 37 anos tirou a si mesma tornou-se viral no Twitter (com mais de sete mil partilhas e quase 300 comentários) e também no Instagram. E isso talvez seja espelho da necessidade que muitas mulheres sentem em falar do assunto.

 

Em Portugal, segundo dados publicados pela Ordem dos Médicos, a taxa de abortos espontâneos ronda os 25% de todas as gravidezes. “É impressionante que ninguém nos fale sobre os casos que existem: quando se trata dos nossos corpos, tudo é tabu”, lamenta Paula Bonet.

 

A artista referia-se ao silêncio ao qual muitas mulheres se obrigam quando passam por uma gravidez mal sucedida — apesar da dor, sofrem sozinhas por não quererem partilhar o que estão a viver.

 

“Fala-se pouco de doenças como a endometriose (e do pouco investimento que é feito na investigação), de dar à luz e rejeitar o filho, de dar à luz e perdê-lo passado poucos dias, do preço elevado dos tampões e dos pensos higiénicos (que têm o mesmo IVA que o caviar apesar de serem bens de primeira necessidade), de como são horríveis e dolorosas as náuseas e tonturas do primeiro trimestre da gravidez”, escreveu.

 

E há mais. “Nem se fala de que apenas existe literatura sobre a maternidade (ir à guerra é mais heróico e parece interessar mais à indústria editorial e ao público), nem de que para 20% das mulheres o mais provável é perder o que tem no ventre antes que seja um feto.”

 

O texto de Paula Bonet — acompanhado de uma ilustração da artista Louise Bourgeois — traz ao palco um tema ainda pouco falado, mas que algumas figuras públicas têm tentado pôr na agenda. Recentemente, a jornalista jornalista norte-americana Jessica Levy contou a sua experiência. Antes dela, Mark Zuckerberg tinha revelado que ele e a mulher tinham sofrido três abortos espontâneos. E Beyoncé e Mariah Carey também tomaram a mesma iniciativa. “Falemos destas coisas, comecemos a normalizá-las”, pede a artista licenciada em Belas Artes na Universidade Politécnica de Valência e que passou pelo Porto em 2012.

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