Sónia Nisa

Crónica

A grafia dos dias: dentaduras

De manhã, completam a "toilette" num sorriso de brilho plástico. À noite decoram bacias

Texto de Sónia Nisa • 14/12/2017 - 18:20

Sónia é formada em Artes Plásticas. Por cá, foi professora e monitora de um atelier terapêutico. Vive e trabalha no Reino Unido

Distribuir

Imprimir

//

A A

À noite é vê-las afogadas. Submersas em água turvada, após instantes de efervescência. Pautam, silenciosamente, as rotinas diárias. De manhã, completam a toilette num sorriso de brilho plástico. À noite decoram bacias. Sem elas, sobrevivem as bocas como que vazias. Gengivas púdicas da nudez sugam as flácidas carnes das bochechas. Bocas transformadas num não-lugar.

 

Por vezes animam-se, movidas por uma força invisível. Desarticuladas, saltam e soletram estranhos sons. Apitos negando a falsa juventude.

 

Victoria alojou-as clandestinamente meses a fio. Escondia-as de nós na sua caverna húmida. Recusou-lhes qualquer breve e apressada escovadela. Longas negociações trouxeram-nos à luz do dia as negras e escorregadias próteses.

 

− Olha como eu fico engraçada sem dentadura. — Diz Daisy. Olha-me fixamente nos olhos e brinca.

 

Revela-se desinsuflada. Boca sem pipo e corpo reduzido aos sulcos lavrados na face. Nada mais tem importância, nos breves momentos em que lhe escovo a dentadura. Uma vez devolvida, mulher inteira. Nova ilusão, cerrada entre os dentes sob o sabor amargo do flúor.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que