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Crónica

Viver, até à morte

Os cuidados paliativos têm de ser uma realidade. No advento de novas terapias, novos meios de diagnóstico, quando os esforços se unem para evitar a morte, invistamos igualmente na vida. Trabalhemos para que haja vida, digna, até à morte

Texto de Leonor Matos • 06/12/2017 - 18:43

Leonor Matos
Leonor Matos, médica, aspirante a oncologista e paliativista

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Estamos no gabinete, porta fechada, silêncio. Observo-os, alternadamente. Ela, olhos encovados, branca como as páginas em que escrevo. Ele, olhos marejados, sobrolho contraído, esforçando-se por não soltar as lágrimas denunciadoras do seu desespero. Ela, e ele, não têm um nome. Têm vários. São tantos e tantas. São tantas pessoas. Pessoas.

 

Que viram o seu caminho invadido, aquele caminho que todos percorremos, cada um o seu, e que tomamos como certo; “amanhã jantamos fora”, “para a semana visito os avós”, “daqui a dois meses vou a Paris”, “para o ano mudo de emprego”. Planear, programar, imaginar como será, esperar por dias melhores. Assim vivemos.

 

Mas, e se nos mudassem as medidas? Se nos víssemos obrigados a colocar as lunetas que reduzem as distâncias, com as quais aquele longo caminho, ao qual não víamos o fim tantas são as etapas ainda por vir, fosse encurtado numa correcção drástica da miopia da nossa vida; e afinal a estrada pudesse acabar já aqui. Um ano, talvez passe a ser uma vida. E um dia, uma viagem. E da cama ao sofá, uma odisseia.

 

Penso no que seria se me visse neste lugar, no lugar dela, no lugar dele. E tremo, fico com pele de galinha. Mas eles sorriem-me. Olhos encovados, marejados, tantas vezes sorriem-me. Agradecem o meu nada que parece tanto, ironizam o dia-a-dia, agradecem o presente. Mas precisam muito de chorar. E precisam muito de falar. Acima e mais que tudo, precisam de não se sentir sozinhos. Na sua visão, o caminho não só parece mais curto, como cheio de obstáculos. Foi invadido, e a invasão veio de dentro. E entregam-se a nós para que a controlemos, a todos nós. E nós? A quem todos os dias estas pessoas dão permissão para que entremos nas suas vidas, nos seus corpos. Que lhes damos em troca?

 

Além do nosso esforço máximo na procura da terapêutica com mais eficácia e menos toxicidade, da nossa pesquisa sistemática por marcadores mais específicos, percorrendo cortes axiais, coronais, na procura de sinais, que lhes podemos dar, em troca da sua entrega total?

 

A nossa.

 

Rendidos perante a grandeza destes seres humanos, ajoelhemo-nos compassivamente para pegar neles, para irmos lado a lado, de mão, braço, abraço dado, pelo terreno incerto e invadido, encurtado, mas que pode ser tão difícil de percorrer, tal é o sofrimento que se antecipa. Recordemos-lhes que, na impossibilidade de decidir até quando vivemos, decidamos como vivemos. E que a solidão amplia os problemas. E por isso, vamos juntos.

 

Cuidados paliativos é isto.

 

É dar segurança. É tratar, aliviar, orientar, acompanhar. É escutar muito. É saber estar ali, no silêncio, com olhos encovados e marejados. É falar sobre o que se fez. Sobre o que se quer muito fazer. Sobre o que não se fará. É dizer "desculpa", "amo-te", "obrigada", "adeus". Dizê-lo muitas vezes. No final, é celebrar a vida e aceitar a morte como parte dela.

 

Como negar tudo isto a uma pessoa? Como podemos deixá-la desamparada nos momentos em que mais precisará de suporte? Os cuidados paliativos têm de ser uma realidade, para todos, e agora. No advento de novas terapias, novos meios de diagnóstico, quando os esforços se unem para evitar a morte, invistamos igualmente na vida. Abracemos os caminhantes, para que a vista lhes seja mais agradável, até ao fim. Trabalhemos para que haja vida, digna, até à morte.

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