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Crónica

Da morte e da dor

É-nos difícil aceitar que um dia iremos morrer e que um dia poderemos ter de conviver com a separação que a morte provoca

Texto de Estefânia Barroso • 04/12/2017 - 14:03

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E de tempos a tempos a vida faz questão de nos lembrar, da forma mais brutal, que ela é vida e que por isso se nasce, cresce e morre. A verdade mais elementar é que todos os dias nascem pessoas. E, da mesma forma, todos os dias morrem pessoas. Por isso, viver é saber conviver com a imensa alegria que nos traz um nascimento, assim como com a enorme tristeza que o desaparecimento de uma pessoa nos provoca.

 

Contudo, verificamos cada vez mais que somos uma sociedade que não se encontra preparada para a morte, nem para a perda daqueles que nos são caros, daqueles que, de um modo ou de outro, fazem parte da nossa vida. O facto de sabermos que esta é a lei da vida, que a morte é parte integrante da nossa existência, não nos prepara para a partida de qualquer ente querido. Somos uma sociedade que sonha com a juventude eterna. Usamos todo o tipo de cremes, todo o tipo de tratamentos para adiar uma velhice que nos aproximará (se a caminhada ocorrer de um modo dito normal) da ideia de morte. Não pensamos na possibilidade constante da morte (nossa e dos nossos) e, de um modo pueril, achamos que ela acontece aos outros, a outras pessoas e a outras famílias. E esse pensamento é necessário para vivermos com alguma serenidade, arrumando numa parte escura do nosso cérebro a possibilidade constante de desaparecer deste mundo, a possibilidade constante de passarmos a ser apenas uma memória naqueles que nos rodeavam. A verdade é que nos é difícil aceitar que um dia iremos morrer e que um dia poderemos ter de conviver com a separação que a morte provoca.

 

Apesar de tudo, e por difícil que a morte seja de aceitar, parece-nos ser mais fácil ter uma atitude resignada e menos dorida perante ela quando a mesma acontece em pessoas que viveram uma longa vida. Sentimos que aquele ser cumpriu a sua viagem neste mundo e que agora pode partir sem deixar grandes sonhos por viver. Foi uma vida que chegou à sua meta e que agora se apaga. Não quero com isto dizer que seja fácil. Apenas considero que é mais fácil aceitar esta lei da vida e, a seu tempo, realizado o luto necessário, abandonar a dor lancinante e dar lugar a um sentimento mais doce e resignado. Contudo, quando o fenecimento se dá em pessoas que ainda tinham muito para viver, muito para dar, sentimos que o chão nos foi roubado. A aparente segurança com que conseguimos viver, afastando de nós a ideia da morte, ignorando-a, é-nos roubada quando uma vida jovem é ceifada. Sei que tais mortes nunca são resolvidas no nosso íntimo. Nunca nos abandona esta sensação que muito ficou por dizer, muito ficou por sentir, muito ficou por viver. No fundo fica uma sensação de vazio, uma sensação de vida inacabada, uma sensação de vida não cumprida.

 

Ainda assim, e com a inexorabilidade da passagem do tempo, a dor vai ficando mais ténue. Reaprendemos a viver, convivendo com a ausência da pessoa que nos deixou. A mágoa vai ficando mais lá no fundo, tapada por camadas de aceitação, por algum esquecimento e pelo surgimento de um novo sentimento, ajudado pelas memórias deixadas por quem partiu: uma saudade que nunca nos abandonará mas que se vai tornando mais tolerável, mais doce, menos devastadora. A nossa vida, porque assim é a lei da vida, sobrepõe-se à vida perdida. E é essa força, que alguns de nós desconhecem possuir, que nos permite continuar a viver, independentemente da perda de entes queridos.

 

As duas últimas semanas têm sido negras, demasiado negras para o país. Em 15 dias perdemos três nomes maiores de áreas variadas. E, quando o país pensava que já chegava de notícias tristes, somos assombrados com mais uma fatídica notícia: desta feita foi o Zé Pedro que decidiu dizer farewell e nos deixar. É uma notícia dura. Ainda que fosse esperada, é uma notícia difícil de receber, de aceitar e de compreender. Mais um artista que, por morrer tão jovem, muito deixa por viver, por cumprir e por sonhar.

 

Todos os dias morrem pessoas. Sabemos isso. Mas quando morrem pessoas que, de alguma forma, se encontram mais próximas de nós, é-nos substancialmente mais difícil ignorar esta realidade. Os Xutos & Pontapés e a figura do Zé Pedro acompanharam-me durante a minha infância, como uma das poucas bandas portuguesas com sucesso. O Zé Pedro abandonou o palco. E todos nós sentimos que perdemos um dos nossos, um dos que nos faz ter orgulho em ser português. E por isso digo que esta é a hora do país exprimir a dor, de se despedir de quem nos abandona tão precocemente, de cumprir o luto, de acalentar a dor. Só assim daremos lugar às memórias doces que a seu tempo chegarão.

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