Adriano Miranda

Concurso

Quando recuperar uma ilha é um projecto de arquitectura social

Programa Habitar Porto criou concurso de ideias para recuperar um ilha em Campanhã. Arquitectos têm de pensar proposta que concilie interesses do proprietário e inquilinos. Numa lógica de justiça social

Texto de Mariana Correia Pinto • 29/11/2017 - 19:21

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Quando há dias conduziu uma aula aberta na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), Aitor Varea Oro levou ao auditório a metáfora de uma “sopa de pedra” para falar do que anda a tentar fazer pelo lado oriental do Porto há quase dois anos. “Partindo de uma coisa pequenina podemos fazer uma sopa”, diz ao P3 em jeito de início de conversa. O projecto Habitar Porto, por ele criado, é essa pedra a transformar-se em banquete: começou com Fátima Castro, a pedir ajuda para recuperar a sua ilha no Bonfim, cresceu com um concurso ibérico que pôs arquitectos a burilar ideias fora da caixa, alargou-se depois a Campanhã. O sonho do arquitecto espanhol fez-se vontade da educadora social Liliana Lopes, contaminou estudantes, tornou-se uma plataforma informal de formação. E está agora a promover um concurso de ideias que quer provar que “não há contradição entre arquitectura e objectivo social. Pelo contrário: a arquitectura pode ser uma ferramenta social.”

 

João Rapagão chama-lhe um “concurso singular”. Esqueçam-se os habituais modelos públicos ou privados: aqui tudo está “desformatado” e o desígnio vai para lá da recolha de uma ideia de arquitectura viável. Passa por promover “debate sobre a cidade, o direito à habitação e validar uma tipologia histórica que está a ser subvertida” — as ilhas. O arquitecto e docente da Universidade Lusíada ajudou o Habitar Porto a compor o regulamento do concurso, a pensá-lo. E não foi apenas pelo apreço a Aitor, com quem se cruzou quando este frequentava o 5.º ano do curso: “Quis fazer parte por acreditar que os arquitectos têm uma missão social, antes de outras, sejam elas disciplinares, autorais ou vaidades pessoais”, explica o consultor do concurso como quem faz uma declaração de posição.

 

O “Pensar, construir, habitar”, criado em parceria com a Junta de Freguesia de Campanhã, quer ajudar uma proprietária a recuperar o seu património com custos controlados (e os inquilinos a ter acesso a habitação de qualidade a preço justo) e provar que a arquitectura é também um caminho para uma cidade mais inclusiva. A equipa vencedora terá um prémio de 4000 euros e a possibilidade de desenvolver o projecto.

 

Andreza Jesus foi parar à ilha do número 52 da Rua das Antas, no Porto, por um acaso. Andava em busca de uma casa para remodelar e arrendar e um agente imobiliário levou-a ali. “Não andava à procura desta tipologia”, conta. Andreza, brasileira de Minas Gerais a viver em Ovar há já 17 anos, não sabe explicar o que a seduziu naquele conjunto de casas. “O sol batia de forma diferente, por causa do pátio, a claridade era enorme”, conta a proprietária a recordar a primeira vez que ali entrou. O encanto pela construção e recuperação vem-lhe da infância. Ainda menina, acompanhava muitas vezes o avô, pedreiro, nas suas visitas às obras. Ao longo da vida, os avós foram andando de malas às costas, de casa em casa, recuperação em recuperação. E ela ganhou o gosto àquilo.

 

Há coisa de um ano, fechou o negócio no Porto. Comprou a ilha de morfologia atípica (com um pátio triangular no meio das casas em vez do tradicional corredor) ainda sem saber ao certo o que a esperava. E isso — percebeu depois — era mais complexo do que pensava. A intenção de Andreza Jesus foi sempre comprar para pôr a casa no mercado de arrendamento de longa duração: “Queria que fosse um bom negócio para toda a gente”. Mas nem toda a gente achava boa ideia. O primeiro gabinete de arquitectura que contactou deu apenas uma solução: deitar tudo abaixo. Outro, sugeriu-lhe uma remodelação para alojamento local.

 

Não era isso que pretendia. Andreza pôs-se, então, a pesquisar sobre soluções para ilhas e cruzou-se com o Habitar Porto. “Marquei logo uma reunião com o Aitor”, recorda. Finalmente, estava em sintonia com alguém. “Por mim tinha entregue tudo ao Habitar naquele momento”, graceja.

 

A ideia do arquitecto valenciano era, no entanto, outra. “Achei que tinha mais impacto transformador fazer um concurso.” Isso, explica, permitia não só dar resposta à ideia da proprietária, “de recuperar com uma lógica de justiça social”, mas também “colocar certos valores que estão na periferia do pensamento dos arquitectos no centro”.

 

Para construir as bases do concurso, o Habitar fez, como é regra no projecto, um “levantamento integrado, arquitectónico e social, do caso”, explica Liliana Lopes, que coordena o Habitar com Aitor. Na ilha de 14 casas, muitas estavam por ocupar, outras em condições inabitáveis. E à medida que a proprietária tentava perceber a situação dos contratos, muitos moradores foram saindo. “Muitas vezes explicava aos vizinhos que ela não nos queria daqui para fora, nem aumentar as rendas, mas estavam todos desconfiados”, conta Carla Pascoal, que com o companheiro ocupa uma das casas da ilha. A única com gente neste momento.

 

Ilhas: do século XIX ao XXI

Tipicamente portuenses, produto da revolução industrial, as ilhas “continuam válidas”, desde que saibam adaptar-se aos seus dias. E não para turismo — ou não apenas para turismo, pelo menos. “É interessante para jovens casais, idosos, qualquer pessoa que não precise de áreas grandes” e que aprecie a “partilha comunitária” que caracteriza estes espaços, avalia João Rapagão. Para Aitor Varea Oro, a tipologia foi uma surpresa. Quando chegou ao Porto, em 2009, e começou as pesquisas para o seu doutoramento, à volta do SAAL, cruzava-se constantemente com aquela palavra. Ilha — que em catalão significa quarteirão. Só depois de alguns contactos percebeu que eram coisas diferentes — e encetou uma visita à ilha do galo preto, na Rua de São Victor. Lá, foi recebido com espingarda na mão. Mas com toda a segurança e ternura. Com direito a fotografia para a posteridade. Era o início de uma relação séria.

 

Neste concurso que idealizou, as propostas de recuperação da ilha — que integrou a operação SAAL – Antas, mas não chegou a ter qualquer intervenção — devem ter em conta, por exemplo, a questão da sustentabilidade económica do projecto: “Como ajudar simultaneamente a proprietária e os inquilinos, numa lógica de custos controlados e rendas condicionadas”, explica Aitor. Serão, pois, valorizadas soluções construtivas simples, com fácil manutenção que permita custos controlados, durabilidade e qualidade das habitações e ainda promoção de emprego local.

 

Para abrir o mercado aos arquitectos mais jovens, o Habitar optou por criar o concurso para equipas projectistas de dois arquitectos: um com experiência profissional de pelo menos três anos, outro sem essa limitação. “Ajuda a dar visibilidade aos mais novos e a consciencializar as novas gerações para esta realidade”, justifica João Rapagão. “Isto não é uma coisa do SAAL nem com teias de aranha. É de hoje. Aliás, de hoje mais do que nunca tendo em conta a transformação que a cidade sofre.”

 

O diagnóstico não é, no entanto, trágico. “Felizmente, os arquitectos estão cada vez mais conscientes de que o seu produto tem uma importância social”, avalia Aitor perante o aceno concordante de João Rapagão. Mas nas faculdades ainda falta perceber que “aquilo que está no estirador pode não funcionar no estaleiro”, continua. O docente da FAUP não podia concordar mais: “A academia está totalmente divorciada da realidade, os cursos estão muito virados para o desenho do projecto”. É verdade, acrescenta como quem faz o papel de advogado do diabo, que cinco anos de curso não chegam para tudo. Mas têm, pelo menos, de ser o suficiente para criar uma “consciência cívica de que a arquitectura tem uma missão social”.

 

João Rapagão gostava que este concurso funcionasse como uma espécie de “ensaio” para outros certames onde também se “repensem modelos de habitar a cidade”. Para lá das “publicações em revistas e dos circuitos académicos e profissionais”, acrescenta Aitor Varea Oro, “era bom que houvesse uma linha editorial onde se premiasse mais o processo do que o resultado final. Há outros modelos para além dos tradicionais. É possível fazer de forma diferente”.

 

O concurso, já aberto e cujo regulamento pode ser lido online, está dividido em duas fases. As primeiras propostas têm de ser enviadas até ao dia 11 de Janeiro. O júri — onde estarão Aitor Varea Oro, Pedro Ramalho, Roberto Falanga, a proprietária e um representante da junta de Campanhã — elegerá as oito melhores que passarão a uma segunda fase de desenvolvimento da proposta inicial.

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