Tiago Costa

Solidariedade

Incêndios: como uma bicicleta ardida pode ajudar o antigo dono

Uma fotografia tirada por acaso resultou num sorteio solidário. Tiago Costa quer restaurar uma bicicleta "toda chamuscada" e doar o dinheiro angariado ao sr. Almerindo, o antigo dono que perdeu tudo nos incêndios de 15 de Outubro

Texto de Renata Monteiro • 14/11/2017 - 17:29

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Uma bicicleta estava estacionada nos escombros da casa, em Arganil, Coimbra. O telhado da habitação, completamente consumida pelo fogo, tinha caído em cima da bicicleta. Tiago Reis encontrou-a quando andava com o sr. Almerindo, dono da casa e da pasteleira, a ver os estragos de um dos incêndios de 15 de Outubro último. Estava junto “a uma série de peças de ferro que o senhor ia, talvez, tentar vender à sucata”, conta. Sem pensar muito, fotografou-a.

 

Tiago não sabe o último nome do vizinho. É amigo há muitos anos da família que também tem casa na aldeia de Vale do Moinho onde, naquele dia, arderam cinco casas, duas de habitação própria, recorda. O que também não sabia é que ao publicar aquela fotografia no Facebook estava na verdade a arranjar quem ajudasse o vizinho depois de este ter perdido quase tudo o que tinha para o fogo.

 

A ideia veio de outro Tiago, Costa, dono de uma loja de restauro de bicicletas do Porto, a Sub 954. “Nem ela [a pasteleira] escapou... Pergunta ao dono quanto quer por ela que eu salvo-a e penduro lá na loja! Pelas circunstâncias merece uma nova vida!”, comentou na publicação. “Amanhã pergunto-lhe!”, respondeu-lhe Tiago Reis. No dia seguinte, disse-lhe o que tinha dito o sr. Almerindo: “Não quero nada, ofereço-lha, pode levá-la.” E Tiago Costa não aguentou. “Estamos a falar de uma pessoa de 80 anos que perdeu tudo: casa, carros, animais e material agrícola. Ficou com um porco, um cavalo e uma pick up velha. Foi isto que ele conseguiu salvar”, diz ao P3, à volta de uma bicicleta que começa a ganhar vida nas suas mãos.

 

O plano inicial — quando perguntou o preço — era restaurar a bicicleta, vendê-la e doar o dinheiro a uma organização de apoio às vítimas de incêndios. Mas quando Almerindo disse que lhe oferecia a pasteleira, a causa tornou-se pessoal. Decidiu “deixá-la como nova”, tal como o planeado, para depois a sortear. A ideia é entregar a totalidade do dinheiro angariado — juntamente com ração para animais e outros bens essenciais (que não sejam roupa, mobília ou electrodomésticos, pedem) — ao antigo dono da pasteleira EFS.

 

Para isso decidiu vender 200 números, dos quais já só restam cerca de 50, a dez euros cada. O objectivo é surpreender o sr. Almerindo e entregar-lhe as doações, em Arganil, entre os dias 15 (o prazo para participar no sorteio) e 20 de Dezembro. Tiago Costa gostava que fosse o antigo dono da "bicla" a sortear o nome do vencedor, caso este aceite, em directo para o Facebook.

 

“Se um cliente chegasse aqui com aquilo [a pasteleira], eu dizia-lhe para a levar à sucata, que não valia a pena”, garante Tiago Costa. Assim que “pegou na menina ao colo” — um dos nomes mais ou menos carinhosos que Tiago dá às bicicletas que lhe aparecem — percebeu que da pasteleira "toda chamuscada" só se aproveitava o quadro, o guarda-lamas e pouco mais.

 

Mas aquela EFS tinha história e reuniu reforços na concorrência; os amigos José Campinha e Vítor Machado estão a ajudar na pintura e montagem. “É pouco tempo, estamos cheios de trabalho, mas cada um oferece uma peçazita e a coisa faz-se a tempo”, assegura. O telemóvel apita. Parece que há menos um número disponível para o sorteio.

 

 

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