Como encaramos a morte em cada parte do mundo

autoria Ana Marques Maia

// data 20/11/2017 - 17:35

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ATENÇÃO: esta fotogaleria contém imagens que podem ser consideradas chocantes.

 

"Vamos todos morrer. Este facto é comum a todas as pessoas de todas as culturas, religiões e países do mundo", evidencia o fotógrafo dinamarquês Klaus Bo, em entrevista ao P3. "A forma como nos relacionamos com a morte e como nos despedimos daqueles que amamos, no entanto, varia bastante.” Essas variações estão no centro o projecto Dead and Alive, que o fotógrafo desenvolve há vários anos e que tem como objectivo retratar os rituais fúnebres das cinco principais religiões do mundo — o Islão, o Judaísmo, o Hinduísmo, o Budismo e o Cristianismo — e de dez outros associados a outros credos. Tudo começou depois de ter fotografado um funeral numa mesquita, em Copenhaga, em 2002, e de ter visto, pela primeira vez, uma pessoa morta. "No Norte da Europa, a morte é um enorme tabu. Não queremos lidar com ela, não sabemos como falar sobre ela e os nossos rituais consistem em meia hora numa igreja, seguida de duas horas a comer bolo e a bebericar café. Nada mais. Por norma, nem sequer chegamos a ver o corpo da pessoa que morreu." Um ritual fúnebre dinamarquês difere em absoluto de um ritual indonésio; é essa diversidade que alimenta a curiosidade do fotógrafo e o mantém na sua cruzada. Ma'nene é o nome do ritual mais interessante que fotografou até hoje. Em Toraja, na Indonésia, durante o mês de Agosto, "aqueles que já morreram são retirados das suas campas por membros da família, são limpos e vestidos com roupas novas", descreve. "Depois disso, tiram-se fotografias de família com os falecidos", continua. "Assistir a isso foi uma experiência interessante e incrível." No Nepal, viu também um grupo de pessoas a colocar um morto rígido na posição de lótus, algo que jamais esquecerá. O dinamarquês tem sido bem-vindo em todos os locais por onde tem passado, mas admite que nem sempre é fácil ter acesso às cerimónias, por se tratarem de momentos tão íntimos e dolorosos.

 

Klaus Bo conclui que existe um elemento comum em todos os rituais que registou: a crença na vida eterna ou na reencarnação. "Em alguns locais acredita-se que a vida continua exactamente da mesma forma que aqui na Terra, mas que tudo acontece noutro lugar." A Dinamarca, no entanto, representa uma excepção à regra. "No meu país, existe a crença de que tudo acaba quando morres. Quase ninguém acredita que exista algo para além da morte e, ao mesmo tempo, recusamo-nos a aceitar a nossa própria mortalidade." Até hoje — e desde há vários anos —, Klaus Bo já fotografou rituais fúnebres em Madagáscar, Gana, Nepal, Índia, Dinamarca, Indonésia, Haiti, Gronelândia, Guatemala e Filipinas. Ultimamente tem andado a estudar a Roménia, mas confessa ter uma lista em que constam 55 rituais que considera suficientemente interessantes para fotografar à volta do mundo. "Quando comecei, não tinha ideia de que este projecto se tornaria no grande trabalho da minha vida." 

 

Klaus Bo dedica 30 a 40 horas ao projecto por semana, ao mesmo tempo que reúne fundos para novas expedições, trabalhando como freelancer. "Espero que no futuro [esta série fotográfica] dê origem a mais do que um fotolivro e a uma exposição itinerante", refere. O projecto já foi publicado na revista National Geographic, em 2016, e continua em desenvolvimento. O seu progresso pode ser acompanhado através da conta de Instagram @deadandaliveproject. Ao longo da carreira, Klaus Bo já trabalhou sobre vários temas, entre eles a vida de refugiados iraquianos na Síria, a perseguição aos cristãos coptas no Egipto ou a devastação causada pelo terramoto no Haiti, em 2010.

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