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Crónica

A relação terminou e ficaram dois estranhos

E os segredos que só eles sabem? Os amigos que se fazem de ambos os lados e que continuam amigos mesmo depois de tudo, até os que tomam partidos? As histórias para lá da história têm uma continuidade maior do que o sentimento

Texto de Marco Gil • 29/10/2017 - 20:51

Marco Gil
Marco Gil é fotógrafo e contador de histórias

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Quando o amor termina, parece que tudo se perdeu com ele; as memórias, as histórias, os sonhos que ficaram a meio mas parece que nunca existiram, até o rosto… Se lhe passarmos a mão já não é o mesmo, porque a pessoa com quem passámos os últimos anos da nossa vida nos parece estranha.

 

O fim do amor não varre apenas corações, alastra indiferença e por vezes desconsideração.

 

"Mas continuo a nutrir um certo carinho por ti" — são as últimas palavras de quem já não tem nada para dizer, porque não tem mais para sentir. A intensidade ficou no passado e o presente dá lugar aos problemas ou a um eclipse na memória.

 

Acredito no amor verdadeiro, naquele que une famílias ou os amigos que já são família pela vida toda e que mesmo que o caminho possa, a determinada altura, ser sinuoso, no final o amor é tão certo como no início. Esse não desaparece.

 

Mas o amor entre um casal, quando conhece a ruptura, pode fazer com que o passado se apague.

 

Conquista-se para depois nos apaixonarmos de forma tão arrebatadora que confudimos amor e paixão e passamos a sentir sem medida, baralhamos tudo menos a presença porque já não conseguimos viver um sem outro. E passamos anos nisto para que, numa semana de céu nublado e discussões agrestes, tudo se evapore como se nunca tivesse existido.

 

O que mais me impressiona é a indiferença de quem se cruza no jardim dias mais tarde e parecem tão estranhos um ao outro como os restantes que compõem o parque. Mas há meses partilhavam a mesma almofada, enganavam-se na escova de dentes e deixavam o pequeno-almoço preparado para quando o outro se levantasse, porque aveia é o que ela come há dez anos sempre que se levanta e ele sabe.

 

A cumplicidade perde-se ao ponto de parecer que nunca existiu e a cumplicidade é uma coisa séria.

 

Passam de confidentes a estranhos, mas o que é estranho é a saudade ter deixado também de existir. E como não podemos ter saudades de dias bons? O amor é para se viver, se sentir e partilhar; não é justo que não deixe saudades.

 

Sei que quando a outra pessoa nos magoa a dor aumenta e que ninguém tem saudades da dor, mas conseguiremos sempre filtrar as saudades.

 

Ninguém inventou o amor, não há decretos para ele, não se convida para jantar, não tem morada ou lugar fixo; é um sentimento tão nobre que mesmo quando termina deixa pelo menos o legado de se ter vivido de forma bonita e intensa.

 

Faz-me impressão que, mesmo desaparecendo, dê lugar a sentimentos que não se compatibilizam com ele.

 

É por isso que por cada vez que vejo dois "estranhos" que se conhecem melhor do que Tom e Jerry nunca percebo porque não levantam o olhar com a firmeza de quem já honrou a cumplicidade e se cumprimentam, restituindo assim um pouco de consideração pelo amor, por eles ou por um passado bonito.

 

O amor até pode desaparecer, mas a história permanecerá para sempre. O espaço era tanto que não pode ficar vazio de repente, na ausência de tudo restará para sempre o tempo; aquele onde coabitaram e se preenchiam mutuamente.

 

E os segredos que só eles sabem? Os amigos que se fazem de ambos os lados e que continuam amigos mesmo depois de tudo, até os que tomam partidos? As histórias para lá da história têm uma continuidade maior do que o sentimento.

 

O João conheceu a Maria já no final da relação com a Rita. O amor conheceu um rumo novo e o presente também. A Rita já o perdoou, mesmo que o caminho do coração seja sempre o certo. Ainda assim, ontem, quando se voltaram a ver no jantar de anos de um amigo em comum que fora feito durante a relação, parecia que nunca se tinham visto na vida. Se fossem apresentados novamente não pareceria assim tão mal. Nem um aceno, nem um "Olá", nem coisa nenhuma. São, de repente, estranhos.

 

Se o amor era grande e sincero, a ferida será três vezes maior. Mas já Madeleine Scudéry dizia: "Um amor é um não sei quê, que surge não sei de onde e acaba não sei como." Mas as histórias que se viveram, essas, são para sempre.

 

Nunca se arruma na indiferença uma história que teve tempos felizes. Assim como o magenta nunca será a mistura do azul com o amarelo, um cúmplice nunca poderá passar a estranho.

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