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Crónica

Dom Quixote de la Catalunha

Em verdade te digo, amigo Sancho, que todos os povos merecem ser livres e nada deveria limitar a sem par Catalunha

Texto de Luís Coelho • 29/10/2017 - 18:14

Luís Coelho
Luís Coelho é fisioterapeuta e escritor

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— Dom Quixote: Em verdade te digo, amigo Sancho, que todos os povos merecem ser livres e nada deveria limitar a sem par Catalunha.

 

— Sancho Pança: Mas diga-me vossemecê que faríamos nós se todos quisessem ser assim donos de si-mesmos, todos seriam reis e ninguém mandaria

 

— Dom Quixote: Em tempos também quiseste uma ínsula só para ti e até chegaste a governar.

 

— Sancho Pança: Mas deixei de o querer logo que vi ficar o estômago a perder.

 

— Dom Quixote: Um dia destes, meu fiel escudeiro, partiremos a proteger as terras catalãs, é o fado da cavalaria andantesca defender os desafortunados.

 

— Sancho Pança: Ai não, que das outras vezes bem me doeu na lombada, não estou para me bater de novo por sua amada.

 

— Dom Quixote: Não sejas lamechas, ainda acabas fazendo monstros de moinhos de vento.

 

— Sancho Pança: Teríamos problemas com a lei.

 

— Dom Quixote: A lei é a da cavalaria, não terás de pegar em armas.

 

— Sancho Pança: Mas a Espanha...

 

— Dom Quixote: Cada vez mais mourisca, lutarei em justa como catalão, pelo que me chamarão, de agora em diante, Dom Quixote da la Catalunha.

 

— Sancho Pança: Mas o livro já foi impresso com "la Mancha".

 

— Dom Quixote: Fica manchado de vez, passando a apócrifo, agora será outro o livro.

 

— Sancho Pança: Mas nós já não existimos, somos só um sonho.

 

— Dom Quixote: Sê realista, Sancho, fomos sempre sonho e esse pode sempre mudar.

 

— Sancho Pança: Novos sonhos, novos reinos, novas leis, cá me parece tudo o mesmo, que nada muda. Ainda há-de vir a Catalunha conquistar a liberdade própria e a de todos, impedindo novas Catalunhas de existirem.

 

— Dom Quixote: Isso é o que os fazedores de encantamentos nos querem fazer crer, é preciso esperança, nós somos necessários.

 

— Sancho Pança: Acaba o amo preso, no hospício ou morto.

 

— Dom Quixote: Ora, isso seria repetir o enredo. Na Catalunha, tentarei ver homens e não o rebanho.

 

— Sancho Pança: E se isso for encantamento?

 

— Dom Quixote: Oh que rico encantamento!

 

— Sancho Pança: Oh que rica peça me saiu o meu amo. Porque se todos forem livres não há Catalunha que se salve.

 

— Dom Quixote: Meu caro Sancho, há que ser sensato, a sem par Catalunha não precisa de matar a moral para se ver livre do rei.

 

— Sancho Pança: Olhe lá, que o moinho sempre pode ser um monstro, porque mudando umas coisas outras quererão mudar também, e, depois, é tamanha a mudança, e perde-se a temperança, acaba livre o que era lei, acaba lei o que era livre. E acabam-se também os livros — já nem haverá dos seus para queimar —, e a nossa memória.

 

— Dom Quixote: Fica o sonho e, enquanto houver sonho, restaremos nós os dois.

 

— Sancho Pança: À custa do sonho, não preciso de arriscar o meu ruço.

 

— Dom Quixote: Não é só um sonho, lutar pela Catalunha é antever a união.

 

— Sancho Pança: A união? Então não é "dividir para reinar"?

 

— Dom Quixote: Mas o que se divide pode voltar a unir-se. Talvez os catalães precisem de ser independentes para desejarem voltar a juntar-se aos outros. Não quererão, decerto, conquistar se se conquistarem a si-mesmos.

 

— Sancho Pança: Eu não dizia que nada mudava?

 

— Dom Quixote: "É precise que tudo mude para que tudo fique na mesma". 

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