Prostituição: um corpo, duas vidas

autoria Ana Marques Maia

// data 02/11/2017 - 12:28

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Desvendar os aspectos mais inesperados do trabalho sexual e atacar directamente o estigma que lhe está associado é o principal objectivo do projecto I've Never Been Big Sick, desenvolvido na Bélgica pela fotógrafa alemã Ulla Deventer, entre 2013 e o presente ano. A série de fotografias, que esteve em exposição no B-Lounge da Biblioteca Geral da Universidade do Minho, no Campus Gualtar, ao abrigo do Festival Internacional Encontros da Imagem de Braga, surgiu de um interesse particular de Ulla pelo tema. "A prostituição interessa-me enquanto mulher, do ponto de vista feminino", disse ao P3, em entrevista. "Quanto mais aprofundo o meu estudo, mais me apercebo quão dominante é na nossa sociedade, embora pouca gente fale do assunto. Ainda é um grande tabu. Continuamos a associar a prostituição a algo negativo, a algo de má reputação, apesar de todo o trabalho que já foi feito por tantas pessoas no sentido de inverter essa perspectiva nas últimas décadas." Ulla sente a presença de preconceito, por exemplo, quando revela a terceiros o conteúdo do projecto que desenvolve há quatro anos. "A primeira reacção que obtenho é de admiração. 'Que coragem', dizem-me (...) Mas o que há de corajoso em abordar outros seres humanos?" 


A construção da relação com as retratadas é fulcral no desenvolvimento do projecto. "Visito os locais e falo com as mulheres por quem sinto uma certa empatia. É difícil encontrar uma mulher que venha a tornar-se protagonista porque tem de existir interesse mútuo: ela tem de se interessar pelo que estou a fazer e vice-versa." No terreno, a fotógrafa deparou-se com uma repetição particular: as mulheres com quem se cruzou viviam uma vida dupla. "Elas escondem a sua ocupação, em muitas situações. Existe uma necessidade real de não revelarem a sua profissão, caso contrário — e elas sabem disso — serão excluídas." Esse é um dos motivos por que a sua abordagem não é de cariz documental, pois precisa de proteger as suas identidades.


As mulheres que conheceu são muito diferentes entre si; umas têm educação superior, outras não têm estudos, há quem seja imigrante, quem seja belga, quem trabalhe de forma independente ou então em associação a um proxeneta; há de tudo neste universo. "Algumas trabalham de noite nas ruas, outras nos seus estúdios de dia; todas têm no seu passado uma situação difícil que as 'empurrou' para o mundo da prostituição." Como desemprego ou toxicodependência. "Todas me disseram que no início não era fácil dormir com estranhos e que, se tivessem tido uma oportunidade, teriam desistido imediatamente." O quotidiano delas é, estruturalmente, semelhante ao da maioria da população. "Cumprem, em muitos casos, a mesma rotina de um outro trabalhor diurno", explica. A principal diferença talvez seja o tempo de espera que cumprem entre cada prestação de serviço. "Passam muito tempo sem fazer nada, à espera, o que se torna deprimente, a certa altura. É crucial, nesta profissão, saber lidar com isso."


As imagens que compõem a série fotográfica da alemã são fruto da interacção entre a fotógrafa e as mulheres que retratou. "São baseadas em pistas e histórias reais, inspiradas e influenciadas por elas", conta. "Não tenho interesse em retratar uma pessoa, especificamente. Acredito que as imagens simbólicas podem ser mais comunicantes, por permitirem ao espectador a sua própria leitura."

Eu acho que