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Porto

Pode a tradição salvar a Cunha do despejo?

Nasceu como padaria em 1906 e está num edifício emblemático projectado pelos arquitectos Victor Palla e Bento d’Almeida desde os anos 70. Ir ao restaurante e confeitaria Cunha “é quase uma tradição”. Mas uma ordem de despejo pôs-lhe o futuro interrogado

Texto de Mariana Correia Pinto • 26/10/2017 - 06:42

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Conta Fernando Ferraz que ouviu repetidas vezes o conselho em tom de súplica do arquitecto Siza Vieira. Quando visitava o restaurante e confeitaria Cunha, o Pritzker português sentava-se sempre na mesma “ilha de sofás", na sala dos balcões do emblemático e histórico espaço portuense. Desenhava nos individuais de papel, enrolava-os. Pedia mais, voltava a desenhar e a enrolar. E então, volta e meia, ao admirar aquela obra arquitectónica, não deixava de lhe dar uma palavrinha.

— Você nunca mexa nisto, nunca mude esta casa.

Fernando Ferraz, proprietário do espaço centenário desde 1992, sorria. “Certamente que não”, respondia-lhe.

 

Nunca tal lhe tinha, de facto, passado pela cabeça. Até que, “há uns 15 dias”, uma carta completamente inesperada lhe entrou no correio como um pesadelo. Uma ordem de despejo veio do proprietário do edifício Emporium — construído em 1949 pelo arquitecto José Porto, cujo espólio foi recentemente doado ao Instituto Marques da Silva. Fim da linha: 30 de Abril. Planos para o local? “Provavelmente alojamento temporário. Mas não sei...”

 

A revolta é grande. Há uns três ou quatro meses, os proprietários — que segundo Fernando Ferraz tinham adquirido o edifício em Março — tinham-no chamado para lhe comunicar que era desejo deles que a Cunha permanecesse no espaço, independentemente dos planos para os restantes quatro pisos. Mas depois veio a carta, “uma verdadeira bomba”. E a reacção de Ferraz. Esta quarta-feira, fez chegar à autarquia um pedido para integrar o “Porto de Tradição”, um programa que confere protecção especial contra despejos ou encerramentos forçados. É nessa jogada que está, para já, a depositar todas as esperanças. Se for preciso, outras medidas virão. “Não estou disposto a desistir, de forma nenhuma.”

 

Não haverá muita gente na cidade que se recorde da Cunha original. Aberta a 31 de Março de 1906 na Rua de Santa Catarina (números 520, 522 e 524), junto à Capela das Almas, a casa era inicialmente uma padaria e pertenceria à “família dos Bonitos”, cujos descendentes continuam a ter casas de fabrico de bombons artesanais. “Pão podre doce, tostas doces”, lê-se numa fotografia antiga da fachada onde morava um enorme letreiro com o nome da loja (“Padaria Cunha”) e a descrição de outros serviços ali instalados: confeitaria, mercearia, vinhos finos, azeite. Nos anos 30, quando muda de instalações para um espaço no outro lado da mesma rua, a Cunha consagra-se definitivamente como confeitaria. O bolo-rei já era imagem de marca.

 

“Ainda é”, assegura Fernando Ferraz. As filas em vésperas e dia de Natal eram coisa para sair porta fora e deixar a rua em reboliço. O fabrico era — ainda é — 100% caseiro. Pão, pastelaria fina, bombons. No restaurante, mais recentemente, as francesinhas, os míticos (e grandes) copos de sangria, o buffet diário. Comida “tradicional e caseirinha”.

 

Mas nem só de restauração se fala quando o assunto é a Cunha. No edifício Emporium — onde nos pisos superiores há habitações e escritórios —, foram os arquitectos Victor Palla e Bento d’Almeida quem projectou, no piso térreo, a confeitaria e restaurante Cunha. A dupla tinha-se mudado para a cidade em 1946, encantada pela menos conservadora escola de arquitectura do Porto, e ali fundou um atelier onde se desenharam edifícios emblemáticos, com o pensamento num novo modo de vida. Foram eles quem importaram da América os snack-bares: comer ao balcão, em contacto directo e próximo com o empregado, era à época uma novidade absoluta.

 

Alcatifa no chão, balcão em madeira robusta, bancos altos e forrados assentes numa base de granito nobre, candeeiros clássicos. As “ilhas de sofás”, com privacidade extra, um imponente painel de azulejos. Dos vários snack-bares de estética coerente criados pela dupla, só a Cunha e o Galeto, em Lisboa, sobrevivem. Mas o da capital já está classificado pelo Instituto Português do Património Arquitectónico.

 

O que aqui se passou...

Não havia vez que visitasse o Porto e não passasse por ali. Fernando Ferraz tem à frente uma longa lista de nomes de personalidades conhecidas que se fizeram clientes da sua casa. E vai à memória desencantar uma das histórias que mais o encanta. Andava a Rua Sá da Bandeira em obras, a chuva era corpulenta e Mário Soares entra pela confeitaria. “Estava com os pés cheios de lama. Nem sabia o que dizer. Ele explicou-me que se a mulher sabia que vinha ao Porto e não lhe levava os nossos bombons ficava chateada”, recorda a sorrir.

 

Nos sofás da Cunha, que teve uma sucursal durante pouco mais de um ano na Rua da Venezuela, fizeram-se muitas reuniões políticas. Vários negócios de jogadores. Quando o fecho do Jornal de Notícias e outros diários era tardio, era ali o repouso de jornalistas ao fim da noite. E havia os artistas, vindos do Coliseu, do Rivoli, do Teatro Sá da Bandeira. Muitas noites, as portas fechavam pelas duas da manhã e eles continuavam, em “enorme cavaqueira”. Na baixa da cidade, durante muitos anos, aquele era dos poucos lugares abertos até horas “impróprias”.

 

O hábito não desapareceu — “sempre que há espectáculos os artistas vêm cá, o Pinto da Costa também, políticos. O próprio presidente da Câmara do Porto”, exemplifica Fernando Ferraz, nascido em Baião mas a viver no Porto desde menino, mais ou menos pela altura que começou a trabalhar na Arcádia.

 

É a Rui Moreira que agora apela. A mensagem é simples: “Mantenham o turismo, mas não nos tirem a nós”, resume, “a nossa gente é a nossa gente, os de fora podem vir e ir, ser apenas um ciclo”. O cansaço atacou-o por estes dias. Mas não há fadiga que lhe esvazie a esperança. “Aqui, as pessoas sabem que estão num sítio com história. Vir à Cunha é quase uma tradição.”

 

Notícia actualizada a 30 de Outubro, com correcção da autoria do edifício Emporium.

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