Como a força do mar pode “sarar cicatrizes” do cancro da mama

autoria Renata Monteiro

// data 30/10/2017 - 09:00

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Quando Rebecca Pine foi diagnosticada com cancro da mama, passava muito tempo na praia. E a escrever. A natureza, as ondas e o rugir do mar em Long Island, Nova Iorque, eram uma “terapia” quando, aos 33 anos, um mês antes de se casar — com um estilo de vida saudável, um filho e desejos de outros a caminho —, o diagnóstico a apanhou de surpresa, conta, por email, ao P3. Sobreviveu, continuou sempre a visitar o mar, a vê-lo transformar conchas e objectos, e, depois de acabar de relatar a sua experiência com palavras, queria uma fotografia para mostrar um momento em particular. Escolheu-o porque foi especialmente difícil encontrá-lo retratado durante a sua pesquisa, antes da mastectomia. Já trazia a imagem na cabeça quando se encontrou com a fotógrafa, Miana Jun: queria ver-se e mostrar-se a amamentar a filha com a mama que o cancro não tinha levado. O retrato foi tirado pouco tempo depois de uma segunda mastectomia por prevenção, uma vez que a norte-americana foi também diagnosticada com uma alteração hereditária no gene BRCA1, que aumenta significativamente o risco de cancro.

 

Foi nesse encontro com Miana que começou a história do projecto The Breast And The Sea, que proporcionou a tantas mulheres um final feliz. É que, mais do que contar a sua experiência, Rebecca estava interessada em conhecer e escrever a de outras “sobreviventes”, como chama às mulheres nestas fotografias. Queria ajudar a “sarar-lhes as cicatrizes” e, para isso, tinha de as deixar bem à mostra. “Partilhar imagens das nossas cicatrizes ajuda outros que vão passar pelo mesmo a ter uma noção melhor de como vai ficar o seu corpo”, defende. "E ajuda-nos a não nos sentimos tão sozinhas."

 

O projecto documental começou em 2013 e as duas mulheres deram o primeiro workshop sobre “o processo de cura interior e celebração de si mesmas e do mar” um ano depois. O local escolhido? O mar de Long Island, claro. “É incrível como os participantes se sentem realizados e renovados depois de passarem tempo na água, com o ar fresco, os pássaros, o céu e uns com os outros”, conta a fotógrafa. “Eu tento mesmo capturar e sentir a interconectividade com todas as formas de vida nesse retrato.”

 

As mulheres entram na água juntas, como se vê nestas fotografias, e a primeira sensação, diz, é de “libertação”. Depois é a “paz e o laço de irmandade que se começa a formar entre as várias participantes”. As emoções que se seguem são difíceis de prever. “Os workshops envolvem uma conexão entre as sobreviventes e uma partilha íntima, atém de uma expressão criativa como, por exemplo, uma sequência de movimentos dentro de água”, explica. O objectivo é voltar a pôr nas mãos das mulheres a sua própria definição de beleza. Na opinião de Rebecca, “a maneira como os corpos das mulheres mudam durante o cancro da mama é diferente de como outros tipos de cancro afectam a imagem corporal”. “Altera as partes do nosso corpo que a sociedade diz serem as nossas características mais femininas e nós queremos normalizar estas alterações”, diz. As imagens, muitas das vezes, servem como ajuda “à decisão de fazer ou não reconstrução mamária”.

 

“Eu vi em primeira mão como o projecto transformou as mulheres que participaram”, sublinha. “Estas imagens expressam momentos de verdade, que inspiram e encorajam.” Isto pode significar “dor e lágrimas”, mas também “alegria e felicidade”. O que Miana faz é retratar a sua viagem emocional, dentro do mar, que “tem a capacidade de nos reflectir e de nos suportar de formas que mais nenhum elemento consegue”. “Serem vistas é uma parte gigante do processo de cura”, acredita. As histórias que resultam das mais de 75 entrevistas a sobreviventes, pacientes e especialistas em tratamentos do cancro da mama vão ser reunidas em livro, que as autoras esperam ver publicado em 2018.

 

Esta segunda-feira, 30 de Outubro, celebra-se o Dia Nacional da Prevenção do Cancro da Mama. Em Portugal, todos os anos, são detectados “cerca de 6000 novos casos de cancro da mama e 1500 mulheres morrem com esta doença”, lê-se no site oficial da Liga Contra o Cancro.

Eu acho que