Vítor Cid

Crónica

A Margem Sul

Bem-vindos à Margem Sul, onde toda a gente maldiz a sorte de não viver em Lisboa e onde todos os dias centenas de milhares de pessoas se atiram à estrada e ao rio para alcançar a outra margem, mau grado o Tejo cheio de água

Texto de João André Costa • 16/10/2017 - 17:50

João André Costa
João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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São 6h47 e a camioneta ainda não passou e, quando são 6h47 e a camioneta ainda não passou, das duas, uma: ou vou perder a camioneta das 7h00 no terminal ou saio na praça e corro com todas as forças do meu corpo e das minhas pernas para poder ir em pé na sobrelotada carreira das 7h00 para Lisboa, mesmo a tempo de apanhar fila para a ponte.

 

Não tenho outro remédio, vou mesmo correr, até porque a camioneta a seguir é só daqui a 40 minutos (suprimiram a das 7h20, porquê, porque sim) e quando chego à paragem a camioneta já vai cheia e a fila para entrar acotovela-se à porta entre palavrões e pés pisados, cilindrados sob corpos esborrachados de encontro aos bancos e janelas, a porta de saída está aberta e há quem tente entrar por ali, não obstante os protestos do motorista.

 

7h15 e a vida faz-se de minutos quando, final pesada e vagarosamente, o autocarro lá arranca. Diante de nós não menos de duas horas de viagem entre pára-arranca, arranca e pára, pára outra vez, uma pessoa sai e dez entram, e cada viagem mais parece aquele concurso onde se viam quantas pessoas conseguiam caber num Mini, até que a camioneta lá se avariou e todos para fora, esta semana ainda não tinha acontecido, tinha de ser hoje, mesmo a tempo de chegar à ponte e apanhar o autocarro que vem, cheio, de Almada. Hoje vou chegar tarde.

 

É assim todos os dias, pelo menos desde que me lembro. Quando temos sorte ainda dá para chegar ao terminal e dormir o caminho todo enquanto o rosto nos espalha a baba contra a janela embaciada ao ritmo do sono e da cabeça que nos cai para a frente e para trás, para trás e para a frente, pendente, dormente, até à paragem final no Areeiro.

 

Aqui, a caminho de Lisboa, já vi gerações inteiras crescer, já vi casamentos feitos e desfeitos, amizades ou apenas conversas de circunstância, estudantes e trabalhadores, cursos feitos na fila para a portagem e livros inteiros devorados ao sabor do trânsito. O desconforto, no entanto, é o mesmo de sempre, de há 20 anos para cá, sair mais cedo não dá porque não há transportes e mais tarde não dá para sair mais tarde.

 

Bem-vindos à Margem Sul, onde toda a gente maldiz a sorte de não viver em Lisboa e onde todos os dias centenas de milhares de pessoas se atiram à estrada e ao rio para alcançar a outra margem, mau grado o Tejo cheio de água.

 

E sim, já sei, a Presidente da Câmara virá todos os dias de cacilheiro de Paris para Almada, mas contra a corrente também eu e qual é a pica de gerir uma cidade vazia durante o dia? Qual é a pica quando não se faz parte da mesma mole que se atropela todos os dias contra as cancelas dos terminais fluviais para mais uma viagem que de turística tem pouco, especialmente quando aquela senhora caiu ao rio entre o barco e o cais para se salvar graças a Deus, porque se tivesse morrido a culpa era dos marinheiros, sem esquecer os atropelos e as cotoveladas matinais acompanhadas de insultos, palavrões e empurrões sempre que as cancelas se fecham, um espalho aqui quando a maré está baixa e a rampa que desce tanto quanto sobe e não é a pressa que é muita, os transportes é que são poucos.

 

Por tudo isto não são de surpreender os acontecimentos recentes no Barreiro, onde os seis barcos da manhã se viram reduzidos a quatro sem aviso prévio, e porque o dinheiro dos passes já cá canta e viver na Margem Sul é mesmo uma merda, ou não fosse preciso acordar às 4h00 para ir de carro para Lisboa dormir no banco de trás enquanto se fazem horas para o trabalho. Um dia destes vou emigrar, mas como o ordenando é outra merda, tenho a impressão que ainda não é desta.

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