Desperdiçar comida num mundo onde há fome é “escandaloso”

autoria Mariana Correia Pinto

// data 15/10/2017 - 15:48

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A ideia andava a ganhar lastro desde 2014, quando, a preparar o documentário Que Estranha Forma de Vida, Pedro Serra começou a ouvir falar mais de freeganismo. Nessa altura, o produtor e realizador de 26 anos não conhecia nenhum adepto desse estilo de vida que é também um movimento anti-capitalista. Quando há coisa de um ano decidiu investigar o tema mais a fundo não demorou a perceber que tinha de partilhar aquelas histórias. A busca não foi fácil. Em Portugal, o movimento é ainda escasso — e são também alguns os adeptos que se recusam a dar a cara: “Algumas destas coisas não são consideradas legais, por isso não se querem expor”, explicou ao P3 Pedro Serra, que vai estrear o documentário Wasted Waste no dia 18 de Novembro em Lisboa e no dia 25 no Porto. Mas voltando ao Freeganismo. A expressão junta as palavras free e vegan. Parte, portanto, do veganismo, “mas vai mais além”. Os freegans procuram “sobreviver com o mínimo ou mesmo sem dinheiro” e, para isso, uma das coisas que fazem é recolher alimentos em bom estado dos caixotes do lixo — para consumo próprio e para partilha ("é um movimento muito altruísta”, sublinha Pedro). “Este ainda é um tema tabu em Portugal, há muito estigma para com estas pessoas que vão buscar algo ao lixo”, lamenta. Para o realizador de Proença-a-Nova é incompreensível que assim seja — mesmo porque “um terço da comida que produzimos não é consumida”. Vamos a números apresentados no documentário: em todo o mundo, são desperdiçados todos os dias 3,6 milhões de quilos de comida, o que poderia alimentar 870 milhões de pessoas. E, contraditoriamente, 800 milhões de pessoas passam fome.

 

O documentário com 1h24, filmado entre Porto e Lisboa, mostra o estilo de vida de vários freegans e de movimentos que contribuem para um estilo de vida mais sustentável (Fruta Feia, Reefood, Maria Granel, Banco do Tempo, GoodAfter) e entrevista do deputado do PAN, André Silva, que chegou a propor uma lei que obrigasse as grandes cadeias a doar os excedentes alimentares a instituições. Paralelamente ao documentário, foi criado um movimento em que activistas de vários países fizeram stencils em caixotes do lixo com informação sobre desperdício alimentar. Pedro Serra é vegan desde 2012: “É tão banal na nossa sociedade comer carne, peixe e produtos de exploração animal que nem pensamos muito nisso. Quando parei para o fazer e me informei foi do dia para a noite. Nunca me arrependi e sinto-me muito mais saudável”. Ao conhecer o freeganismo, mais mudanças implementou no seu dia-a-dia. “Neste momento faço compras em mercados locais e comércio justo, evito grandes cadeias.” Com o Wasted Waste, Pedro Serra espera aumentar a “consciência colectiva” à volta do tema — “numa sociedade onde ainda há pessoas a passar fome isto é escandaloso.” 

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